John Coltrane em Livros


TRANE 100
Ao menos desde a década de 1970 muitos livros têm sido publicados abordando a obra e a vida de John Coltrane... 



Por Fabricio Vieira

John Coltrane é um dos artistas sobre o qual mais se fala, especialmente em um momento como o atual, a celebração de seus 100 anos. Nascido em 23 de setembro de 1926, Coltrane se tornou uma lenda da música e, como tal, qualquer pessoa que ouviu um disco e gostou ou apenas embalada pelo hype mesmo pode ficar tentada a falar como se especialista fosse... E ganhar likes, claro, mesmo que as fontes de informação desses comentadores de ocasião sejam faixas aleatórias no streaming e resumos de Wikipedia (ou, para ser mais atual, de IA). Mas Coltrane é um dos mais estudados artistas do jazz e, provavelmente, nenhum outro nome do gênero tenha tantos livros publicados abordando sua vida e música. Assim, quem de fato quiser conhecer (e falar sobre) a obra de Coltrane, tem a obrigação (ou ao menos deveria ter) de mergulhar nesse universo bibliográfico. Imagino que não faltem dúvidas sobre por onde começar ou como seguir caminhando nessas trilhas. Pensando nisso, trazemos uma ampla lista, com breves comentários, sobre os principais livros publicados em inglês sobre John Coltrane (há trabalhos editados em outros idiomas, especialmente alemão e francês, e também livros mais simples e introdutórios que achamos não ser o caso de indicar aqui). Há livros editados desde a década de 1970, parte fora de catálogo, mas a maioria é possível encontrar, mesmo que seja em edição digital. Boas leituras!

 

*JOHN COLTRANE EM LIVROS*

 

Chasin’ The Trane

J.C. Thomas

Da Capo Press (1975, 280 pgs.)

Um dos primeiros importantes trabalhos biográficos sobre Coltrane, foi pesquisado e publicado nos anos logo posteriores à sua morte. O livro traz o que se espera de uma biografia e imagino que tenha tido grande impacto quando saiu, já que à época não havia muito material deste tipo à disposição. Thomas entrevistou de amigos de infância e outras fases da vida de Coltrane (como Ravi Shankar), a parentes (como a viúva Alice) e membros do quarteto clássico, a destacar Elvin Jones, para contar a trajetória dele. A partir desse material, o autor vai mesclando a história biográfica com relatos dessas pessoas que conheceram o artista, dando maior fluidez ao texto.

 

Coltrane: A Biography

Cuthbert Ormond Simpkins

Herndon House (1975, 287 pgs.)

Esta pioneira biografia de Coltrane foi escrita na época em que o autor cursava medicina (sim, com 20 e poucos anos) e, ao que parece, esta foi sua única incursão no mundo da música. Ele começou a trabalhar na ideia em 1969 e levou mais de cinco anos para concluir o projeto. Simpkins teve uma vantagem em relação a biógrafos futuros: conseguiu entrevistar dezenas de pessoas que conviveram com Trane e estavam com ele fresco na memória. O livro é celebrado até hoje por ser um marco, escrito com poética linguagem por um jovem negro fora do establishment jazzístico e publicado de forma independente. Não é o livro que você irá ler para saber tudo sobre a vida de Coltrane, mas é uma obra que oferece uma visão diferente do que a maioria dos livros irão trazer.

 

John Coltrane

Bill Cole

Schirmer Books (1976, 272 pgs.)

Bill Cole é um acadêmico que fez da obra de Coltrane sua pesquisa de doutorado nos anos 70, na Wesleyan University. Tal trabalho deu origem a este livro. Mais do que uma biografia, este ensaio se debruça sobre a música do saxofonista e, como o autor também é músico, apresenta análises mais teóricas sobre composições e caminhos estéticos explorados por Trane. Cole, que teve a oportunidade de ver Coltrane tocando em diferentes ocasiões, também destaca o lado espiritual (além das raízes africanas) do artista e como isso é indissociável de sua obra, com ideias do estudioso nigeriano Fela Sowande estando bastante presentes.

 


John Coltrane

Brian Priestley

Apollo (1986, 96 pgs.)

Uma enxuta e honesta biografia do saxofonista, que serve de introdução competente a quem ainda não se aventurou por outros títulos de maior fôlego que existem por aí. Escrito por um pianista e crítico de jazz britânico, tem nas análises musicais suas colaborações mais interessantes (até porque a narrativa biográfica é secundária, apoiada em outras obras, não trazendo nada de muito novo). Brian Priestley é autor de um muito interessante artigo, publicado na Jazzwise, sobre a única visita de Trane à Inglaterra, em 61, contando sua experiência pessoal.


 

Ascension: John Coltrane and His Quest

Eric Nisenson

Da Capo Press (1995, 278 pgs.)

Dividido em duas partes, este livro aborda desde os primeiros encontros de Trane com Miles Davis, em meados da década de 1950, até a morte do saxofonista em 1967. O autor separou as duas partes  da seguinte forma: a primeira, chamada de “Resolution”, vai até a concepção do clássico A Love Supreme; a segunda, “Pursuance”, segue o saxfonista daí até sua morte. Nessa biografia intelectual-sonora, Eric Nisenson apresenta passagens  da vida do saxofonista sempre dialogando e destacando sua produção musical no momento. Não é uma biografia strictu sensu, tendo sido arquitetada basicamente com informações secundárias, ou seja, muito mais pesquisa de arquivo/bibliográfica do que entrevistas.

 


John Coltrane: His Life and Music

Lewis Porter

University of Michigan Press (1998, 448 pgs.)

Esta provavelmente seja a biografia definitiva de Coltrane. Se vai ler apenas uma, fique com esta, um extenso painel de sua trajetória, das raízes familiares no século XIX ao legado pós-morte. Porter é um dos grandes especialistas em Coltrane e escreveu este livro no momento certo, depois de muito se aprofundar sobre ele e sua obra – começou a se dedicar ao universo traneano nos anos 80 e a escrever de fato este livro a partir de 1994. A ampla pesquisa para a obra incluiu dezenas de novas entrevistas com personagens que conviveram com Coltrane (destaque para a prima Mary, parente mais próxima dele, a quem dedicou uma peça, “Cousin Mary”) e a audição de entrevistas do saxofonista, parte delas nunca transcritas antes. O autor também é pianista e professor, e não se furta de fazer análises teórico-musicais de peças selecionadas no decorrer do livro.

  

Coltrane: The Story of a Sound

Ben Ratliff

Farrar, Straus and Giroux (2007, 272 pgs.)

Difícil alguém se propor a escrever uma nova biografia de John Coltrane após o amplo e bem escrito trabalho de Lewis Porter. Mas o crítico Ben Ratliff aceitou o desafio de mais uma vez adentrar esse universo. Mas ele tem um gancho particular para sua empreitada: “Este não é um livro sobre a vida de Coltrane, mas a história de sua obra. Um livro sobre o jazz como som”, diz. A primeira parte tem um perfil mais crítico biográfico, indo dos primeiros registros de Trane em 1946 até sua morte, mostrando como seu som foi se formando e estabelecendo. A segunda parte aborda a influência que esse som exerceu em sua época e sua continuidade até os dias atuais.

 


Coltrane on Coltrane: Interviews

Chris DeVito

Chicago Review Press (2010, 416 pgs.)

Um muito saboroso livro para quem se interessa a fundo por Coltrane. O pesquisador Chris DeVito compilou as entrevistas que Coltrane deu para a imprensa em diferentes tempos, a partir de 1955. Apesar de o saxofonista não ser nem muito prolixo nem um provocador — antítese de seu parceiro Miles Davis —, as dezenas de entrevistas aqui reunidas (não só material publicado na imprensa; há também conversas que tinham como destino o encarte de um disco, por exemplo) formam um painel estimulante sobre o que ele pensa e defende em relação a diferentes tópicos. Uma coleção bem organizada e editada, com notas explicativas e introdutórias.


 

The Recordings of John Coltrane: A Discography

David Wild

Ann Arbor (1977, 96 pgs.)

Este foi um trabalho pioneiro de catalogação da discografia de John Coltrane. O saxofonista editou sua obra basicamente por três selos: Prestige (1957-58), Atlantic (58-60) e Impulse (61-67) – o clássico “Blue Train” saiu isoladamente pela Blue Note. Mas o fato de muita coisa gravada ter ficado engavetada, sem aparecer por longos anos após sua morte, e muito disso surgindo em versões compiladas por produtores muitas vezes com critérios discutíveis, faz com que, especialmente na época da edição deste livro, houvesse muita confusão. Um trabalho único durante cerca de duas décadas.

 


John Coltrane: A Discography and Musical Biography

Yasuhiro Fujioka

Scarecrow Press (1995, 379 pgs.)

Esta nova visitação ao universo discográfico de Coltrane teve muita importância quando saiu, uma época em que a internet engatinhava e buscar informações era algo ainda muito mais trabalhoso. O colecionador e pesquisador japonês Yasuhiro Fujioka propõe aqui expor um painel da obra musical coltreneana. Com apoio de conversas com gente ligada à sua música diretamente (Rudy Van Gelder, Michael Cuscuna) e muitos colecionadores, o autor monta uma espécie de almanaque com todas as sessões de estúdio (e gravações ao vivo) possíveis de serem catalogadas até 1993 (destrinchando tudo o que havia sido lançado, em LP, CD e K7 oficiais ou piratas, nos EUA, Europa, Japão e Coreia). Hoje talvez seja um livro menos relevante, com muita coisa tendo sido descoberta ou editada nessas três décadas, mas é ótimo poder ter um desses na estante (fora de catálogo, custa em média U$ 500).    

 

The John Coltrane Reference

DeVito/ Wild/ Fujioka/ Schmaler/Porter

Routledge (2008,  826 pgs.)

Esta é uma espécie de ampliação do trabalho pioneiro de Wild e Fujioka na proposta de catalogar exaustivamente a discografia de Coltrane. Sua elaboração contou com eles e outros especialistas, tendo a edição sido preparada por Lewis Porter. É um item essencial para os grandes fãs de Coltrane. O extenso livro contém informações detalhadas sobre todos os concertos (conhecidos) que Trane fez e todas as sessões de estúdio, de 1946 até sua morte. Nessas quase duas décadas desde a edição do livro, algumas novas informações surgiram e gravações foram resgatadas, então alguns tópicos aqui ficaram algo defasados. Atentos a isso, e sem que uma nova edição revista esteja no forno, os autores prepararam um site no qual falam sobre as atualizações de informações. De qualquer forma, segue como um livro único e essencial no que se propõe – é muito bom poder folhear essas páginas enquanto ouvimos mais e mais a música de Coltrane.

 

The John Coltrane Companion

Carl Woideck (org.)

Schirmer Books (1998, 222 pgs.)

Este livro é uma antologia que traz resenhas de discos e concertos, artigos e ensaios sobre Coltrane e sua obra, vindos de outros contextos (ou seja, a ideia não é trazer material totalmente inédito) e de diferentes décadas – o subtítulo do livro esclarece: “Five Decades of Commentary”. Há também entrevistas do saxofonista, algumas transcritas sem edição, como nunca apareceram antes. Woideck, organizador do livro e professor de História do Jazz na Universidade de Oregon, é um dos acadêmicos estadunidenses que tem dedicado bastante tempo ao estudo do legado de Coltrane.




Coltrane and the Jazz Revolution of the 1960’s

Frank Kofsky

Pathfinder Press (1998, 582 pgs., 2ª ed.)

O clássico de Frank Kofsky não é propriamente um livro sobre Coltrane, apesar de tê-lo como um de seus protagonistas. Tanto que a versão original do livro, editada em 1971, chamava “Black Nationalism and the Revolution in Music”. É um livro mais sobre a cena free jazz, escrito lá no fogo da virada dos anos 60 para os 70. Para esta segunda edição, a editora quis aproveitar o status de Coltrane e o colocou no novo título e na foto da capa, enfim. De qualquer forma, o saxofonista é o centro das partes 3 e 4 (esta, chamada de “The anatomy of John Coltrane Quartet”, traz entrevistas com Elvin Jones, McCoy Tyner e Trane). Importante e muito recomendável livro para entender a cena free além da esfera musical (como indica o título original).



John Coltrane: Jazz, Racism and Resistance

Martin Smith

Redwords (2001, 160 pgs.)

Um relativamente breve, mas instigante, ensaio crítico-biográfico. Aqui a arte de Coltrane é apresentada estando intrinsicamente ligada a seu meio cultural, ao contexto sócio-político dos anos 50 e 60, em que viveu e desenvolveu sua obra. Particularidades da vida do saxofonista ou a análise de sua música ficam em segundo plano. A premissa que conduz a pena do autor é a de que não é possível entender a criação de Coltrane sem dar a atenção devida às esferas cultural, social, racial e de combate ativista que o cercavam. “Minha intenção com este livro é refletir algo mais amplo: a maneira como o jazz e a música de Coltrane foram moldados pelo mundo em transformação e pelo momento político singular em que se desenvolveram”, diz na introdução.

 


John Coltrane and Black America’s Quest for Freedom

Leonard Brown (org.)

Oxford University Press (2010, 256 pgs.)

Importante obra que reúne artigos e ensaios que abordam a arte de Coltrane a partir dos new jazz studies. O organizador Leonard Brown (1946-2019), professor de música e de estudos afro-americanos na Northeastern University, em Boston, diz que a abordagem geral da obra é etnomusicológica, tendo contado com colaboradores de diferentes áreas de estudos. Textos como “Coltrane as the personification of spirituality in Black Music” e “Coltrane and the practice of freedom” tratam de alguns dos estimulantes tópicos em discussão. Algumas entrevistas aparecem no final do livro para complementar o painel exibido, com Yusef Lateef, Billy Taylor e Olly Wilson.

 


A Love Supreme: A Criação do Álbum Clássico

Ashley Kahn

Barracuda (2007, 285 pgs.)

Infelizmente o único título da bibliografia de Coltrane publicado no Brasil – e, infelizmente de novo, já fora de catálogo! –, esta obra do pesquisador e crítico Ashley Kahn é única no que se propõe. Aqui está toda a história da criação de A Love Supreme, de sua gênese a seus impactos posteriores no jazz e na cultura. E o livro não se resume à suíte. O autor volta, nos capítulos iniciais, à história do saxofonista, apresentando de forma muito informativa, mesmo que não profunda, sua trajetória (escrito com precisão e de agradável leitura). Imprescindível para conhecer a fundo a obra-prima de Coltrane.

 


Beyond A Love Supreme

Tony Whyton

Oxford University Press (2013, 173 pgs.)


Este livro traz quatro partes relativamente independentes, escritas por um acadêmico (ele mesmo diz que as partes podem ser lidas seguidamente ou de forma avulsa). São ensaios que abordam a obra-prima de Coltrane em si, musicalmente; seu papel no cânone jazzístico; a recepção das peças de Trane posteriores a ela, ou seja, a fase free; e o impacto cultural do disco após os anos 70 (os dois últimos capítulos são os mais interessantes). Não é indispensável, mas interessante para quem, por exemplo, quer seguir explorando A Love Supreme e já leu o livro de Ashley Kahn.

 


Coltrane: The Definitive Visual Celebration of the Legend

Ravi Coltrane (org.)

Ten Speed Press (2026, 288 pgs.)

Na celebração de seu centenário, a bibliografia de Coltrane ganhou uma obra dedicada a fotografias dele. Traz mais de uma centena de imagens, parte delas  pouco conhecidas. A maioria vem de cliques profissionais, imagens do saxofonista em ensaios, gravações e concertos, de fotógrafos de jazz renomados como Francis Wolff e Jean-Pierre Leloir. Um dos destaques são as fotos inéditas da sessão para a capa e o encarte do álbum “Ascension”, feitas por Chuck Stewart. Ravi Coltrane foi o responsável pela edição do material.

 



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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)