Coltrane: 1961 Village Vanguard Recordings


CRÍTICAs
Possivelmente o mais importante registro ao vivo do lendário saxofonista John Coltrane é reeditado em box com 7 LPs... 

 


Por Fabricio Vieira

Em 2026 será celebrado o centenário de duas das maiores lendas da música: Miles Davis e John Coltrane. Nascidos, respectivamente, em 26 de maio e 23 de setembro de 1926, os dois geniais músicos devem ter mais uma vez o fundo do tacho raspado pelas gravadoras em “celebração a seu centenário”. Não há mais quase nada de inédito para se explorar deles, mortos há décadas, afinal. Para fãs colecionadores, novas prensagens, vinis coloridos, algum material ao vivo/radiofônico ou gravações reembaladas devem ser os principais atrativos (alguns verdadeiros caça-níqueis para manter a indústria em movimentação).

Mas no meio desses tradicionais cozidos celebratórios há um lançamento realmente de valor: pela primeira vez, sai em vinil The Complete 1961 Village Vanguard Recordings, gravação de máxima importância histórica de John Coltrane. Este material foi editado completo apenas uma vez, em CD, já tardiamente no ano de 1997 – está fora de catálogo há tempos; mais um motivo para se comemorar esta reedição. The Complete 1961 Village Vanguard Recordings traz as gravações realizadas em quatro noites no início de novembro de 1961 no lendário clube novaiorquino Village Vanguard, onde Coltrane fazia celebrada temporada com seu novo afiadíssimo grupo, trazendo a seu lado o que seria conhecido historicamente como “quarteto clássico”, com McCoy Tyner (piano), Elvins Jones (bateria) e Jimmy Garrison (que começava exatamente aqui sua jornada ao lado de Trane; Reggie Workman empunha o baixo em algumas faixas). A eles se juntaria o genial Eric Dolphy, formando um quinteto avassalador, cuja música fascinante o ranzinza crítico John Tynan, da DownBeat, rotulou como anti-jazz — há ainda a participação pontual dos convidados Ahmed Abdul-Malik e Garvin Bushell.

Aquelas noites representaram um marco na evolução libertária da música de Coltrane e, para sorte nossa, foram registradas pelo preciso engenheiro de som Rudy Van Gelder (ou seja, feito por quem sabe tudo, não apenas um curioso bootleg de fã), que montou seu equipamento em uma mesa colocada estrategicamente próxima ao palco. A Impulse, com quem Coltrane havia acabado de assinar, foi lançando o material a conta-gotas, a começar pelo clássico álbum “Live at the Village Vanguard”, editado em fevereiro de 1962, trazendo um aperitivo daquelas noites, com três faixas apenas, “Spiritual”, “Softly, as in a Morning Sunrise” e “Chasin’ The Trane”. Ocupando todo o lado B do LP original, Chasin’ The Trane, com seus pouco mais de 16 minutos, em trio sem piano, se revelaria a mais radical peça registrada pelo saxofonista até então. Ashley Kahn, no livro “The House That Trane Built: The Story of Impulse Records”, escreveu com precisão sobre a peça: “...the birth cry of sixties avant-garde jazz: an outpouring of stylistic tongues and melodic ideas that linked the bebop dexterity and daring of the past with a free, stripped-bare, spiritually charged future”. Em vida, Trane veria apenas mais um pouco desse material aparecer, no álbum “Impressions”, com mais duas faixas pinceladas. Outras peças daquelas noites surgiram em coletâneas com o passar do tempo. Mas o material todo reunido, mais de quatro horas de música, distribuídas por 22 faixas, apareceria apenas na efeméride das três décadas de morte do saxofonista, em 1997, em um box caprichado com 4 CDs — e somente em CD, como era comum à época.

Fora de catálogo há muito, The Complete 1961 Village Vanguard Recordings está sendo reeditado agora, pela primeira vez em vinil. O novo box traz nada menos que 7 LPs, em prensagem inicial limitada de 2,5 mil cópias, com um livreto de 20 páginas com ensaios e fotos raras, a preço sugerido de US$ 200 (caro para 7 LPs?). Para o lançamento, foi feita nova masterização a partir das fitas analógicas originais, o que apenas eleva o interesse dos fãs. Este material em sua completude apresenta Coltrane trabalhando com liberdade envolvente e desconcertante, buscando novos rumos para sua música noite após noite, nos levando, quando sentamos para ouvir agora, mais de meio século depois, a um universo único. As 22 faixas apresentam 10 composições diferentes (“India” e “Impressions” estão entre as mais reexecutadas, sempre surpreendentemente frescas), com versões que podem chegar a 20 minutos, como a “Spiritual” captada na noite de 5 de novembro. Sem dúvida, um dos mais importantes registros ao vivo da história do jazz.

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)