TRANE 100 anos A música do saxofonista John Coltrane vivenciou
em seus últimos dois anos de vida uma impactante radicalização, que chacoalharia
a cena jazzística como nunca...
Por Fabricio Vieira
John Coltrane (1926-1967) encerra 1964 atingindo o auge com seu quarteto
clássico: a gravação de A Love Supreme aconteceu em dezembro daquele ano e
representa o que de mais fino seu grupo com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin
Jones alcançou. Já o ano de 1965 traria uma ebulição de ideias e energia que
levou seu quarteto a implodir em pouco tempo. Tyner reclamaria que, com a
música que o saxofonista começou a propor, já não podia nem mais se ouvir.
Jones, por sua vez, achava um insulto a ideia de Trane de ter outro baterista
tocando a seu lado. Eles seguiram com Coltrane ainda por 1965, mas acabaram
sendo substituídos por Alice e Rashied Ali, como se sabe.
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| (Photo:
Chuck Stewart, 1966) |
Se Coltrane
acompanhou o alvorecer do free jazz e esteve sempre atento e aberto ao que de
mais novo surgia, seria nos últimos dois anos de vida que sua música se
tornaria de fato um dos pontos de efervescência do gênero. Podemos dizer que se
sua carreira tivesse sido interrompida em
A Love Supreme não daria para
colocá-lo como um dos pilares dessa vertente: falar em Coltrane e free jazz
implica olhar para o que ele fez entre 1965 e 1967. Se ele sempre esteve um
passo à frente e elementos free jazzísticos marcaram sua música aqui e ali, foi
em seus últimos dois anos de vida que adentrou frontalmente essa seara. A
música de Coltrane se transformou radicalmente em menos de uma década. Ouçam
seus discos de 57-58, frutos da efervescência hard bop, e vejam onde ele estava
em 65-66. Em sua trajetória de rápida e profunda transformação não houve algo
como uma ruptura, mas uma evolução sonora que nunca se interrompeu: avant-garde
por natureza, Trane sempre esteve atento ao que de mais desafiador vinha
ocorrendo na cena, sem ignorar o que estavam fazendo os mais jovens, que vinham
ampliando as veias abertas pela New Thing. Em 1965, quando adentra de vez o
free, Coltrane completa 38 anos. Os jovens que eram mais próximos a ele e
estavam colocando fogo no jazz eram Archie Shepp, com 28 anos, Albert Ayler,
com 29, e Pharoah Sanders, com 25 anos. Todos tocaram com ele, ao vivo e/ou em
estúdio, além de Coltrane acompanhar o que vinham fazendo. “
I have a lot of
faith in Ayler”, disse ele em entrevista.
Nesse período final, Coltrane entrou diversas vezes em
estúdio. Por sorte nossa, há também relativamente bastante material ao vivo bem
registrado desse tempo. Quem estava lá nessa época pôde ter a experiência única
de ver Coltrane no palco. Mas acompanhar o que acontecia em sua música foi uma
tarefa confusa e cheia de lacunas, já que muito das gravações que documentariam
sua revolução free foram editadas em disco apenas anos depois (em alguns casos,
muitos anos). Dessa forma, somos hoje privilegiados por podermos ouvir seus
últimos registros na ordem em que foram gravados, o que nos permite ter um
incrível painel de sua (r)evolução sonora. Ao ouvir com calma os álbuns, de
estúdio e ao vivo, a partir de
Ascension, em ordem de gravação, vemos que não
houve passos atrás. Sua música passaria a trazer energia e explosão ruidosa renovadas;
elementos sonoros orientais e africanos se tornam ainda mais presentes; as
improvisações rolam livres como nunca, temporal e expressivamente. Sem esquecer
da decisiva esfera espiritual, que agora tudo rodeia.
Apresentamos abaixo todos os discos que John Coltrane gestou
a partir de Ascension, pela ordem das gravações, um painel de seu mergulho no universo
do free jazz, um processo de radicalização encantatória de sua arte, que deixou
uma obra final inigualável. Ouça os discos, sinta a música e entenda o porquê
de Coltrane – que completaria 100 anos no dia 26 de setembro – ser um dos mestres
maiores da música criativa de todos os tempos.
*COLTRANE: Revolução Free*
*1965 – A porta aberta por Ascension leva sua obra a um novo
universo. E no segundo semestre deste ano, o saxofonista conduzirá sua música a
campos nunca experimentados, nem por ele nem por ninguém, até então, mesmo que
isso significasse o fim de sua idolatrada era clássica...
ASCENSION
Nada de tão radical havia sido registrado desde “Free Jazz”,
de Ornette Coleman, quando Ascension surgiu. Gravado em
28 de junho de 1965, Ascension
é uma declaração de Trane de que sua música necessitava de outros rumos a
partir dali. Com um conjunto de 11 músicos, gravou o tema duas vezes, tendo
como resultado uma peça de 38 minutos e outra de 40 minutos. Junto a seu
quarteto estavam novatos promissores que davam corpo à cena free nascente, como
Marion Brown, Archie Shepp, Pharoah Sanders e John Tchicai. E a coisa poderia,
se isso é possível, ter uma pitada extra de explosão: Rashied Ali foi convidado
para tocar uma segunda bateria, mas infelizmente recusou.
SUN SHIP
O quarteto clássico permanecia em atividade, apesar dos
planos de expansão grupal de Coltrane. Um mês depois de Ascension, voltam ao
estúdio com novas 5 peças. Era o dia
26 de agosto. Ali será gestado um prelúdio
do que estava por vir. Sun Ship é um ponto nevrálgico na transição entre o
quarteto clássico e a música livre que estava para nascer do sopro do
saxofonista. Aqui ele toca apenas sax tenor. Mais do que nunca, os breves e
repetitivos temas apresentados por Coltrane nas faixas servem centralmente de
pontos de partida para a improvisação mais livre e furiosa que vinha elaborando,
o que se reflete especialmente em “Sun Ship” e “Amen”. O disco seria editado
pela primeira vez apenas em 1971. Décadas depois, em 2013, apareceria a versão
Complete, em CD duplo, com diferentes takes das faixas originais. Uma nota
sobre as antenas de Trane: um pesquisador destacou a semelhança entre o tema
que abre a faixa-título e o tema do bongô que inicia “Infinity of the
Universe”, de Sun Ra – isso explicaria o nome da peça, Sun Ship, uma homenagem
ao mestre de Saturno.
FIRST MEDITATIONS
Passada apenas uma semana da gravação de Sun Ship, em
2 de
setembro, Coltrane entraria em estúdio pela última vez apenas com os membros de
seu celebrado quarteto. O saxofonista estava levando sua música a um campo que
Tyner e Jones não tinham desejo de seguir. As 5 novas composições que ele levou
ao estúdio traziam o espírito de A Love Supreme e estavam destinadas a formarem
uma nova suíte. Mas agora Trane buscava sons mais ariscos e imprevisíveis. O
que fizera até ali com o quarteto não era mais suficiente. Se essa música nova
tinha uma atmosfera geral contemplativa, é palpável a elevada tensão presente
na sessão: Tyner e Jones parecem não acompanhar a liberdade demandada pelo
saxofonista; ele vai embora com seu sopro enquanto piano e bateria parecem
ainda ligados ao som clássico da banda (“Consequences” é o grande exemplo
disso). E talvez por isso Trane tenha engavetado o registro – First Meditations
seria lançado em LP apenas mais de uma década depois, em 1977. Coltrane
retornaria ao estúdio com essas composições em breve, desta vez com um sexteto,
resultando na obra-prima Meditations (daí sim soando como provavelmente ele
desejava).
LIVE IN SEATTLE
Ainda em setembro, Coltrane embarca para Seattle, onde nunca
tinha levado sua banda. Ele já parte com novas ideias e convida Pharoah Sanders
para se juntar a eles, marcando o adeus ao quarteto clássico. Um músico de
Chicago que já havia tocado com Coltrane anos antes, Donald Garrett, também se
une ao grupo, que vira um sexteto. Eles tocam no clube Penthouse, onde tinham
mais de uma data agendada, e Coltrane decide registrar esta apresentação do dia
30 de setembro, que seria editada em disco duplo apenas em 1971. A música ao
vivo mais intensa e livre registrada por Coltrane até então, com peças que se
estendem por 20, 30 minutos.
OM
No dia seguinte ao concerto,
1º de outubro, Trane coloca
o pessoal em uma van e se deslocam até Lynnwood, rumo ao Camelot Sound Studios.
A eles se junta o flautista local Joe Brazil. Mais novas ideias no ar, e eles
criam ali a fantástica OM. Biógrafos contam que a sessão, quase 30 minutos sem
cortes de improvisação coletiva, oscilando entre o enérgico e o espiritual,
deve ter sido turbinada com LSD. OM se revelaria uma das peças mais singulares,
fascinantes e inebriantes deixadas pelo músico. Na abertura e no
encerramento de OM ouvimos os músicos entoando um cântico vindo de uma
passagem do livro IX do texto sagrado indiano Bhagavad Gita. Entre
as orações, uma avalanche de sons guturais e estridentes, vozes ecoando num
sistema de ataque-resposta no qual os instrumentos de sopro ora se misturam,
ora se distanciam, criando uma perturbadora massa sonora.
A LOVE SUPREME: LIVE IN SEATTLE
No dia seguinte à gravação de OM, em
2 de outubro, o saxofonista e seus
parceiros voltam a Seattle, onde tinham mais um concerto marcado no Penthouse.
E Coltrane queria ainda fazer outros testes. Decide que naquele dia o sexteto
tocaria nada menos que A Love Supreme. Esta gravação ficaria perdida por
décadas, sendo redescoberta nos arquivos de Joe Brazil, que fez o registro, cinco
décadas depois (só foi editado em 2021). Versão estendida da suíte, com solos
matadores e interlúdios instrumentais, com “Pursuance” trazendo os pontos mais
enérgicos.
KULU SÉ MAMA
No dia
14 de outubro, Coltrane e o sexteto estavam em Los
Angeles e ele quis fazer uma nova sessão em estúdio, algo bem diferente de OM.
Desta vez, os convidados foram o percussionista e vocalista Juno Lewis e o
baterista Frank Butler. Eles gravaram duas peças, “Kulu Sé Mama” e “Selflessness”,
duas longas faixas que nasceram para compor um LP, mas, sabe-se lá o motivo,
isso nunca aconteceu: cada uma apareceu em um LP junto a peças de outros tempos
(e atmosferas). Kulu Sé Mama é uma belíssima composição, com força percussiva e
cântico penetrante; Selflessness é um free certeiro, com saxes e percussão
intensos.
MEDITATIONS
Este disco fecha o ano de 1965 e também representa a última
vez em que McCoy Tyner e Elvin Jones tocaram com Coltrane. Gravação em sexteto,
com a adição de Pharoah Sanders e Rashiel Ali (sim, dois saxes e duas
baterias), Meditations é uma nova leitura do material gravado pelo quarteto
meses antes (“First Meditations”). Desta vez, parece que Coltrane encontrou a
fórmula perfeita para aquelas composições. A abertura é fulminante, sendo
chamada de “The Father And The Son And The Holy Ghost” e ocupando o espaço que
era de “Joy” no registro de setembro. Um dos grandes momentos da obra traneana.
Gravado em
23 de novembro no Van Gelder Studio, encerra um ciclo na trajetória
de Coltrane.
*1966 – Coltrane inicia o ano com um novo grupo, com Alice e
Rashied Ali assumindo piano e bateria. Pharoah é efetivado no posto de segundo
sax, e o grupo passa a ser um quinteto. Eles iniciam o ano no estúdio, mas 66
será mesmo marcado pelos discos gravados ao vivo...
COSMIC MUSIC
Coltrane começa o ano levando seu novo quinteto ao estúdio.
Era o dia
2 de fevereiro. Foram registradas na sessão 4 novas peças, que contaram
ainda com a participação do percussionista Ray Appleton. Mas apenas
“Manifestation” (fogo puro) e “Reverend King” (que começa com a recitação do mantra
“Om Mani Padme Hum”) foram editadas em um álbum chamado Cosmic Music, em 1968,
ao lado de duas peças de Alice. Tudo certo, mas bem que a sessão completa
poderia ter virado um disco próprio em algum momento. As outras duas peças
gravadas naquele dia, “Peace On Earth” e “Leo”, foram pós-produzidas, com
adição de cordas, e lançadas em 72 no disco “Infinity”, em uma atmosfera
completamente diferente do que a sessão oferecia. Felizmente, “Peace On Earth”
foi resgatada em sua versão original e apareceu na coletânea “The Mastery Of
John Coltrane III”. Mas a “Leo” original se perdeu, algo muito lamentável.
Existe uma outra sessão em estúdio catalogada de abril de 66, mas que consta
como perdida, onde o quinteto voltou a gravar Leo.
LIVE AT THE VILLAGE VANGUARD AGAIN!
Apenas dois antigos clássicos, “Naima” e “My Favorite
Things”, ficaram como registro da noite do quinteto no clássico Village
Vanguard, em
28 de maio. Se conhecidas para alívio do público, o que sai dali é a extrapolação
de todas as fronteiras relacionadas a estas faixas – sim, estamos nos campos do
free! Naima até que vai tranquila nos primeiros 3 minutos, até que Pharoah
começa com seu solo e vai destroçando a coisa. A liberdade de piano e bateria
também fazem a música circular lindamente por outras vias. Já os solos de “My
Favorite Things” são mais demolidores ainda, com Trane tocando também bass
clarinet. Maravilha pura.
LAST PERFORMANCE AT NEWPORT
As apresentações de Coltrane no Newport Jazz Festival
seguiram ano após ano, mesmo com sua música se tornando cada vez mais radical
(algo meio fora do tom do evento). Com o quinteto, ele subiu ao palco do evento
no dia
2 de julho, onde executaram apenas três longas peças, “My Favorite
Things”, “Welcome” e a então nova “Leo”. Conta-se que a incendiária
apresentação não foi bem-recebida pelo conservador público do Newport Festival,
e que o produtor George Wein inclusive tentou interromper a apresentação na
pausa entre os temas, mas o quinteto ignorou e tacou Leo para rodar, e eles
tiveram que engolir mais quase 25 minutos de explosão pura. O disco não foi
editado oficialmente, sendo este pirata, que apareceu em 2008 em CD, de
qualidade sonora razoável e importância histórica enorme.
LIVE IN JAPAN
A turnê de John Coltrane e seu quinteto pelo Japão em
julho
de 66, onde ele foi pela primeira vez, é algo histórico. Das apresentações que
fizeram em várias cidades, restou bastante material registrado com boa
qualidade. No decorrer dos anos 70, algumas faixas captadas no Japão foram
aparecendo em disco. Apenas em 1991 saiu um box que se tornaria o registro
definitivo da turnê, com 4 CDs. As faixas tocadas vêm de diferentes eras, como
“Crescent”, “Afro Blue” e “Leo”, tudo em modo free com solos abertos e
longuíssimos. “My Favorite Things”, que não poderia faltar, se estende por 57
minutos, sua maior versão já registrada. Trane e Pharoah aparecem também
tocando sax alto, que eles ganharam no Japão.
OFFERING: LIVE AT TEMPLE UNIVERSITY
Em 2010, apareceu um CD com um registro (pirata e parcial)
de Coltrane e seu grupo na Temple University, na Filadélfia, em
11 de novembro
de 66. A fonte do material era a rádio WRTI-FM, responsável pela transmissão do
concerto à época. A Impulse então decidiu ir atrás do registro e lançou, em
2014, a apresentação completa, devidamente remasterizada. O extenso concerto,
cerca de 90 minutos, sairia em CD e LP duplo, ampliando o material de Coltrane
ao vivo captado em 1966. Garrison estava fora neste dia, com Sonny Johnson
assumindo o baixo; houve também a participação de diferentes percussionistas.
De destaque no cardápio, além de Leo, a novíssima “Offering”, que seria gravada
em estúdio alguns meses depois.
*1967 – Diferentemente do que foi o ano anterior, os meses
finais de vida de Coltrane foram marcados por sessões de estúdio, para onde
levou várias novas composições, sendo a última delas datando de 17 de maio
(esta, infelizmente perdida). Shows foram sendo cancelados em 67, em meio à progressiva
piora de sua saúde. Os discos de estúdio que restaram dão alguma ideia de para
onde sua música estava indo, com o formato quarteto voltando a dominar...
STELLAR REGIONS
Este álbum traz um punhado de novas peças de Coltrane,
registradas na primeira sessão de gravação de 67, no dia
15 de fevereiro. Aqui
está apenas o quarteto em ação (com Alice, Garrison e Ali). O material ficou
perdido nos arquivos da família por décadas, sendo resgatado e lançado em CD
somente em meados dos anos 1990 (só uma faixa, “Offering”, apareceu antes, em Expression).
Um disco mais espiritual que enérgico (bem diferente do duo que gravaria dias
depois com Ali), com faixas de belíssimas melodias, como “Seraphic Light” e “Iris”
(os títulos foram dados por Alice para lançar o disco). Coltrane estava
trabalhando muito aqui com o vibrato e sendo mais econômico, sem adentrar as
longuíssimas explorações improvisatórios que marcaram sua música nos anos
anteriores.
INTERSTELLAR SPACE
Apenas em setembro de 1974, a Impulse soltou no mercado esta
gravação, que havia sido realizada no dia
22 de fevereiro de 67. Não se tratava
apenas de música não editada: todo um novo universo sonoro estava ali,
hibernando por anos. Coltrane havia testado o formato de duo de sax e bateria
antes com Elvin Jones, na faixa “Vigil”. Mas um disco inteiro dedicado ao
formato era algo inédito e se tornaria marco e referência para o free jazz. Coltrane
e Rashied Ali registraram cerca de 55 minutos de música fresca, seis faixas,
uma combinação de ideias nunca ouvidas antes, com a improvisação livre estando
no centro da criação. Indiscutivelmente um dos cinco principais registros que
Coltrane fez em sua vida. Uma obra-prima.
EXPRESSION
Este foi o último trabalho planejado por Coltrane. Dias
antes de morrer, ele se reuniu com Bob Thiele e selecionou as 4 faixas do
disco, vindas de sessões de gravações que tinha feito em
fevereiro e março de
67, deu os nomes, decidiu o que ia de cada lado do LP. “To Be”, a única da qual
Pharoah participa, é mais contemplativa, com ele e Trane tocando flauta. No
outro extremo, “Offering” é a mais poderosa (as rajadas que Trane tira do sax a
partir dos 3m35... nunca vi ninguém executar assim; é assustador), sendo a
única que vem da sessão de Stellar Regions. Na versão em CD, entrou mais uma
peça, “Number One”. Um álbum menos coeso que Stellar Regions, mas formando com
ele um testemunho estético dos tempos finais do saxofonista. Expression foi
lançado algumas semanas após a morte de Trane, com uma capa horrível, que
parece querer emular uma lápide, inclusive com as datas de nascimento e morte
dele.
THE OLATUNJI CONCERT
Editado apenas em 2001, em CD, este disco recebeu o
subtítulo de The Last Live Recording. O saxofonista está aqui acompanhado do
quinteto (Pharoah presente), tendo contado ainda com a participação de
percussionistas. O concerto beneficente aconteceu no espaço cultural Olatunji
Center Of African Culture, no Harlem, NY, no dia
23 de abril, um loft que
estava abarrotado de gente para ver o saxofonista, inclusive as escadas e a
calçada em frente tomadas. O disco traz apenas duas extensas faixas, “Ogunde” e
“My Favorite Things”, mas teriam sido tocadas também “Acknowledgement” e
“Tunji”, das quais não há registro. A qualidade da gravação não é nada boa,
além de oscilar muito – provavelmente a pior gravação ao vivo de Trane no
catálogo da Impulse. Mas é um documento de importância indiscutível e uma
música de alta ebulição.
A música de Olatunji Concert é o último registro deixado por
John Coltrane, morto em 17 de julho de 1967, a última vez que o ouvimos tocando. Ele ainda faria um outro
concerto, duas semanas depois, em Baltimore. Entraria também no Van Gelder
Studio uma última vez, no dia 17 de maio. Mas nada desses capítulos finais
restou. Para onde ia a música de Coltrane? Nunca saberemos. Mas fica a certeza
de que ele ainda tinha muito a desbravar, sempre olhando à frente.
“There is
never any end. There are always new sounds to imagine, new feelings to get at.
And always, there is the need to keep purifying these feelings and sounds so
that we can really see what we’ve discovered in its pure state. (...) But to do
that at each stage, we have to keep on clearing the mirror.” (entrevista de
Trane a Nat Hentoff à época do lançamento de Meditations)
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)