Na busca de elevar seus lucros ao máximo, a indústria musical faz qualquer picaretagem editorial, não perdoando nem mestres como John Coltrane...
Por Fabricio Vieira
Coletâneas são algo comum na discografia de qualquer grande
artista, independentemente do gênero. Particularmente não gosto muito de
coletâneas, mas, se tiverem respeitosa curadoria, podem ter sua utilidade como
apresentação/resumo da obra de um artista. Mas a indústria musical, não raro,
extrapola todo o bom uso que se pode fazer disso, criando coletâneas que
escapam das intenções do artista e de sua obra, gerando bizarrices de puro
apelo comercial. E até mesmo mestres maiores da música não estão livres de
serem vítimas de tal abuso...
Esses falsos discos românticos de Coltrane tiveram
diferentes reencarnações (veja as principais abaixo e fuja delas!). Afora as
versões editadas por Prestige e Impulse, há ainda reprensagens não autorizadas
de selos obscuros: muitos foram os discos desse tipo distribuídos nas últimas
seis décadas, e isso continua acontecendo em versões puramente digitais. São álbuns
que Coltrane jamais concebeu ou autorizou, simples caça-níqueis para enganar
desavisados. Que St. John Coltrane os perdoe pela heresia...
Plays For Lovers (1966)
Prestige
O início da exploração de um imaginário Coltrane romântico para abocanhar dinheiro de desavisados. São seis peças, vindas de gravações de 1957 e 58 (nenhuma inédita, todas haviam saído em discos oficiais). Ganhou muitas reedições, inclusive uma em LP Audiophile (!) em 2015. É muita picaretagem.
The Gentle Side of Coltrane (1975)
Impulse
O produtor Edmond Edwards, que havia trabalhado com Trane na Prestige, assume a cadeira de Thiele na Impulse nos anos 70. Qual a primeira decisão que toma em torno do arquivo do saxofonista? Lançar um álbum com o lado leve e suave de Trane, agora com peças gravadas na Impulse. Nem a cortante canção de protesto Alabama escapou.
The Ballads (1988)
Prestige
Mais uma vez a Prestige ataca, revolvendo seu arquivo de 1957/58 e separando 7 faixas. Agora com uma coletânea apenas para os ouvintes do Japão, no auge do mercado do CD. O título desta vez plagiaria o do disco clássico da Impulse (nada deve ser coincidência aqui...).
Plays Ballads (1992)
Prestige
Pobres japoneses! Mais uma vez a Prestige repete o truque com uma “nova coletânea” romântica. Muda a capa, coloca o nome de uma peça de subtítulo (“I Want To Talk About You”), altera a ordem das músicas e troca uma ou outra faixa.
Ballads of John Coltrane (1992)
Impulse
Vendo a concorrente encher o bolso, a Impulse contra-ataca e coloca no mercado japonês esta coletânea. Uma grande salada com peças de 61 a 65, fechando exatamente com “I Want To Talk About You”, em uma versão ao vivo, já que Trane não a gravou em estúdio para a Impulse.
Coltrane For Lovers (2001)
Impulse
A Impulse mais uma vez segue a fórmula. Desta vez, o lançamento é mundial (saiu até no Brasil). Traz 11 faixas, extraídas dos álbuns com Duke Ellington, Johnny Hartman e do “Ballads” original, dentre algumas outras, como “After The Rain”, de Impressions. Um dos discos de jazz mais vendidos daquele ano.
More Coltrane For Lovers (2005)
Impulse
Já que tem tanta gente comprando, por que não repetir o modelo? A Impulse não está preocupada com o legado de Coltrane, mas em fazer o dinheiro girar. Então, veio uma segunda parte, com o singelo More completando o título. São mais 10 faixas. Como a original “Naima” não faz parte do catálogo da Impulse, bastou colocar uma versão ao vivo.
Plays For Lovers (2003)
Prestige
Se a Impulse voltou a ganhar dinheiro com material requentado, a Prestige não deixaria a oportunidade passar. Mais uma vez, usa o título Plays For Lovers, mas tenta dar uma disfarçada ampliando a seleção para 9 peças (afinal, estamos nos tempos dos espaçosos CDs) e trocando uma faixa ou outra dentre as inesgotáveis seleções que fez do material de 57-58.
Plays Ballads (2010)
Midnight Records
Disco de gravadora que não tem relação com o acervo de Coltrane – ou seja, aquele pirata. Saiu no mercado europeu. Focado em registros de 57-59. Sem pudores, abrem com “Naima” (clássico de Trane gravado para a Atlantic e que, por isso, não entrava nas coletâneas de Prestige e Impulse). Para fechar, “Ruby, My Dear” (sim, uma gravação de Monk com participação de Trane).
Ballads (2015)
Le Chant Du Monde
O selo francês chutou o balde. Soltou este box com 4 CDs e anunciou como “pela primeira vez, todas as baladas gravadas por Coltrane de 1956 a 1962”. Não sei como funciona a questão de direitos, mas eles enfiaram aqui qualquer música mais lenta do saxofonista, com material dos discos lançados até o original “Ballads”, inclusive este. Soltaram também versão em 2 LPs.
For Lovers (2016)
Jazz Images
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)













