COLTRANE For Lovers (?!): a arte tratada como mercadoria


Na busca de elevar seus lucros ao máximo, a indústria musical faz qualquer picaretagem editorial, não perdoando nem mestres como John Coltrane... 



Por Fabricio Vieira

Coletâneas são algo comum na discografia de qualquer grande artista, independentemente do gênero. Particularmente não gosto muito de coletâneas, mas, se tiverem respeitosa curadoria, podem ter sua utilidade como apresentação/resumo da obra de um artista. Mas a indústria musical, não raro, extrapola todo o bom uso que se pode fazer disso, criando coletâneas que escapam das intenções do artista e de sua obra, gerando bizarrices de puro apelo comercial. E até mesmo mestres maiores da música não estão livres de serem vítimas de tal abuso...

Nem mesmo John Coltrane (1926-1967), cujo centenário celebramos neste mês de setembro, escapou de tal exploração sem critérios. Dentre muitos Best Of, há em especial uma série de discos pavorosos, que tentam explorar uma faceta que sua obra não autoriza: a de saxofonista romântico. As gravadoras tentaram criar esse fraudulento personagem e, em termos de vendas, deve ter sido muito lucrativo, já que de tempos em tempos aparece, até hoje, novamente estes discos enganadores. Essa praga começou ainda na década de 1960, quando Coltrane se torna um dos músicos de maior prestígio do jazz. Na verdade, a ideia original de um disco de baladas de Coltrane nasceu de forma legítima. Em 1962, o produtor Bob Thiele, que se tornou figura marcante da trajetória de Coltrane na Impulse, pediu a ele um disco mais amigável e vendável. Era o tempo em que certa crítica começava a vê-lo como radical demais, chamando inclusive a música de seu fantástico quinteto com Eric Dolphy de anti-jazz. Coltrane sempre teve liberdade para criar e desenvolver suas ideias, com Thiele não se metendo no que ele fazia. Assim, o saxofonista gentilmente atendeu seu pedido e começou a trabalhar em um disco de standards, só baladas. Parece não ter sido fácil chegar ao material final, já que Coltrane vinha desenvolvendo outras vias expressivas para sua música à época, já com o quarteto clássico formado. Lançado no fim de 1962, Ballads reunia 8 peças, nenhuma assinada pelo saxofonista (algo que nunca se repetiria em sua discografia), gravadas em diferentes sessões entre setembro e novembro de 1962 (com uma faixa resgatada de uma sessão de dezembro de 1961). Ballads é um disco honesto, de beleza por vezes soturna, para ser ouvido em uma madrugada fria com um copo de uísque na mão. Tudo poderia ter ficado por aí e estaria tudo certo. 

Mas a ressentida Prestige, que havia editado os primeiros discos de Coltrane nos anos 1950 e via ele atingir seu esplendor artístico e comercial na Impulse, resolveu cavoucar mais uma vez as gravações dele no selo. Como não tinha mais nada original e inédito para lançar, copiou o conceito de Ballads, mas de forma completamente desonesta: pescou baladas gravadas por Trane nos diferentes discos que ele registrou na Prestige e lançou John Coltrane Plays For Lovers, em 1966 (sim, quando o saxofonista estava no auge do free!). A partir daí, estava aberta a porteira de um dos maiores insultos à memória de Coltrane. No Penguin Guide to Jazz, Richard Cook e Brian Morton deram apenas 1 estrela para “Plays For Lovers” (Prestige) e “For Lovers” (Impulse) e escreveram: “For godness’ sake! Avoid (...) is just barrel scraping”.   

Esses falsos discos românticos de Coltrane tiveram diferentes reencarnações (veja as principais abaixo e fuja delas!). Afora as versões editadas por Prestige e Impulse, há ainda reprensagens não autorizadas de selos obscuros: muitos foram os discos desse tipo distribuídos nas últimas seis décadas, e isso continua acontecendo em versões puramente digitais. São álbuns que Coltrane jamais concebeu ou autorizou, simples caça-níqueis para enganar desavisados. Que St. John Coltrane os perdoe pela heresia...

 

Plays For Lovers (1966)

Prestige


O início da exploração de um imaginário Coltrane romântico para abocanhar dinheiro de desavisados. São seis peças, vindas de gravações de 1957 e 58 (nenhuma inédita, todas haviam saído em discos oficiais). Ganhou muitas reedições, inclusive uma em LP Audiophile (!) em 2015. É muita picaretagem.

 


The Gentle Side of Coltrane (1975)

Impulse


O produtor Edmond Edwards, que havia trabalhado com Trane na Prestige, assume a cadeira de Thiele na Impulse nos anos 70. Qual a primeira decisão que toma em torno do arquivo do saxofonista? Lançar um álbum com o lado leve e suave de Trane, agora com peças gravadas na Impulse. Nem a cortante canção de protesto Alabama escapou.

 


The Ballads (1988)

Prestige


Mais uma vez a Prestige ataca, revolvendo seu arquivo de 1957/58 e separando 7 faixas. Agora com uma coletânea apenas para os ouvintes do Japão, no auge do mercado do CD. O título desta vez plagiaria o do disco clássico da Impulse (nada deve ser coincidência aqui...).

 



Plays Ballads (1992)

Prestige


Pobres japoneses! Mais uma vez a Prestige repete o truque com uma “nova coletânea” romântica. Muda a capa, coloca o nome de uma peça de subtítulo (“I Want To Talk About You”), altera a ordem das músicas e troca uma ou outra faixa. 

 



Ballads of John Coltrane (1992)

Impulse


Vendo a concorrente encher o bolso, a Impulse contra-ataca e coloca no mercado japonês esta coletânea. Uma grande salada com peças de 61 a 65, fechando exatamente com “I Want To Talk About You”, em uma versão ao vivo, já que Trane não a gravou em estúdio para a Impulse.  

 


Coltrane For Lovers (2001)

Impulse


A Impulse mais uma vez segue a fórmula. Desta vez, o lançamento é mundial (saiu até no Brasil). Traz 11 faixas, extraídas dos álbuns com Duke Ellington, Johnny Hartman e do “Ballads” original, dentre algumas outras, como “After The Rain”, de Impressions. Um dos discos de jazz mais vendidos daquele ano.

 


More Coltrane For Lovers (2005)

Impulse


Já que tem tanta gente comprando, por que não repetir o modelo? A Impulse não está preocupada com o legado de Coltrane, mas em fazer o dinheiro girar. Então, veio uma segunda parte, com o singelo More completando o título. São mais 10 faixas. Como a original “Naima” não faz parte do catálogo da Impulse, bastou colocar uma versão ao vivo.

 

Plays For Lovers (2003)

Prestige


Se a Impulse voltou a ganhar dinheiro com material requentado, a Prestige não deixaria a oportunidade passar. Mais uma vez, usa o título Plays For Lovers, mas tenta dar uma disfarçada ampliando a seleção para 9 peças (afinal, estamos nos tempos dos espaçosos CDs) e trocando uma faixa ou outra dentre as inesgotáveis seleções que fez do material de 57-58.

 


Plays Ballads (2010)

Midnight Records


Disco de gravadora que não tem relação com o acervo de Coltrane – ou seja, aquele  pirata. Saiu no mercado europeu. Focado em registros de 57-59. Sem pudores, abrem com “Naima” (clássico de Trane gravado para a Atlantic e que, por isso, não entrava nas coletâneas de Prestige e Impulse). Para fechar, “Ruby, My Dear” (sim, uma gravação de Monk com participação de Trane).  

 

 

Ballads (2015)

Le Chant Du Monde


O selo francês chutou o balde. Soltou este box com 4 CDs e anunciou como “pela primeira vez, todas as baladas gravadas por Coltrane de 1956 a 1962”. Não sei como funciona a questão de direitos, mas eles enfiaram aqui qualquer música mais lenta do saxofonista, com material dos discos lançados até o original “Ballads”, inclusive este. Soltaram também versão em 2 LPs.

 


For Lovers (2016)

Jazz Images

Mais uma vez, não sei os esquemas de direitos, mas este álbum saiu na Europa com material que vai de 1956, da Prestige (na verdade, uma peça de disco do pianista Tadd Dameron com participação de Trane), a 1962, da Impulse. Colocaram um Quartet ali na capa para confundir de vez (como se fosse o quarteto clássico). Salada sonora lançada em versão “Deluxe” em LP. O pobre Coltrane parece estar rindo do ouvinte enganado com mais esse caça-níquel.

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)