CRÍTICAs Primeiro álbum da contrabaixista francesa Joëlle Léandre vai ganhar nova edição em LP...
Por Fabricio Vieira
Taxi - Contrebassiste marca a estreia da já lendária artista francesa Joëlle Léandre. Este brilhante álbum, editado em 1982, é fundamental não apenas por ser o trabalho que marca o início de sua discografia, mas também por soar inventivamente distinto do que ocorria na cena musical daquele período. E sua reedição pelo selo Cien Fuegos/Trost Records merece ser comemorada – em LP, nunca tinha ganhado outra prensagem.
Com pouco mais de 36 minutos e 5 faixas, Taxi - Contrebassiste é um fascinante disco solo marcado por experimentações em diferentes campos, em que Léandre não esconde sua proximidade com o erudito contemporâneo, algo bem latente então, trabalhando com arco e pizzicato, voz, overdubs e pré-gravações, criando peças de vieses distintos, mas que formam um conjunto coeso e coerente, uma narração contínua, na qual a artista amplia as possibilidades de um álbum de contrabaixo solista. O disco funciona como uma viagem poética pelo cotidiano (poderia dele ser feito um filme, com um pré-roteiro interno palpável), com climas variados de intensidade, lirismo e experimentação. A obra teve sua realização em duas etapas: no Studio Achille, em Marly-le-Roi (França), foram feitas as pré-gravações de fitas, em 1981, que seriam utilizadas na finalização da obra; depois, em novembro de 1982, no Liben Studios, em Cincinnati (EUA), aconteceram as gravações finais, edição e mixagem. Essa etapa de finalização foi fundamental para o que a obra seria. Para quem ainda não ouviu o disco, uma explicação: as peças trazem muitas vezes mais de uma linha de baixo, com a utilização de overdubs, além do uso da voz, em recitação ou fragmentos: ou seja, o trabalho de edição é uma peça basilar na construção da obra.Quando colocamos o disco para tocar, em Ouverture (Overture)
a primeira coisa que ouvimos é a voz de Léandre e um barulho que parece ser o
de abrir/fechar uma porta, como alguém saindo de casa. Logo somos arrastados
por uma bela e tocante melodia, que vai nos levando por um caminho que de
início parece reconfortante, mas que acaba sendo invadido por ruídos surgindo
ao fundo, que vão se ampliando e quebrando uma certa lineariedade que parecia
existir. Esse trajeto inicial é interrompido bruscamente após pouco mais de
três minutos, com um focado solo movido pelo arco centrando a escuta por cerca
de dois minutos, até entrarmos na etapa final, de tensão crescente em meio a
linhas sobrepostas. Témoignage (Homage) vem em seguida com uma atmosfera bem
distinta. Uma voz é a primeira coisa que chama atenção, surgindo e
desaparecendo enquanto o contrabaixo vai, incialmente com toques nas esferas
mais graves, assumindo protagonismo, com ataques perturbadores, ríspidos, que
recuam para se desdobrarem em um solo acompanhado pelo canto inicial, que
ressurge, agora mais audível, nos guiando ao desfecho do tema.
Cri (Scream), a faixa seguinte, se desenvolve a partir de três vias principais operando ao mesmo tempo: uma delicada linha dedilhada no baixo; outra linha, arrastada, que sobe e desce, vindo do fundo e tomando o primeiro plano, tocada pelo arco; e fragmentos de vozes, que não chegam a formar sílabas, uma conversa telefônica que ameaça começar, mas que não se desenvolve, em meio a sussurros ("shhh...") que vem e vão. A letargia atordoante do dedilhado remete a um tempo quase que em câmera lenta, nos colocando em um ponto em que a comunicação parece não conseguir se realizar. Esta faixa poderia tocar em loop infinito, acompanhando um melancólico dia cinzento em que as horas não passam... Bass Drum, o último capítulo desta inebriante jornada, nos apresenta outros campos, com uma tensão progressiva quando o arco irrompe cortando as cordas e o espaço, por sobre um dedilhado que circula de um lado a outro, como se não soubéssemos de onde vem, até sons pré-gravados confundirem nossos sentidos, lembrando algo de música concreta, com uma melodia, tocada agora pelo arco, se insinuando por entre ataques mais ríspidos que atravessam a atmosfera de maneira sufocante. Apenas no último minuto uma melodia que parecia rondar o ar consegue começar a se desenvolver, trazendo certa ordem à escuta, como uma coda nos conduzindo para fora daquele universo.
Editado em 1982 na França pelo Adda (Association Départementale por le Développement des Arts), selo mantido por incentivos estatais e destinado à música contemporânea, Taxi - Contrebassiste recebeu no ano seguinte uma edição nos Estados Unidos, pelo Liben Music, especializado em música contemporânea de câmara e orquestral. Uma curiosidade: a versão estadunidense não traz o subtítulo “Taxi” (veja capa ao lado). Não se sabe o motivo disto, mas o que parece apenas um detalhe se revela mais do que isso quando prestamos atenção ao disco. O subtítulo, a imagem da capa, a peça central do álbum integram um todo que perde um de seus alicerces com tal subtração. A diluição da obra se estenderia nos anos 1990, quando é publicada em CD. Primeiramente, o título foi trocado para “Urban Bass”, sendo publicado pelo mesmo Adda em 1990. Depois, o que parece um descuido ainda maior: um novo conjunto de peças foi adicionado ao registro original de Taxi. Trata-se de “Séraphine Duo", dueto com a violista Sylvie Altenburger, registro em quatro partes que vem do mesmo novembro de 1982 em que Taxi foi gravado, mas soando distinto, algo camerístico. O problema é que “Séraphine" não entra como um bônus no final, como era de se esperar: as peças são colocadas no meio dos temas do disco original, como um bloco estranho entre “Taxi” e “Cri (Scream)”, quebrando a lógica que regia a obra de estreia de Léandre. Talvez a própria instrumentista tenha participado da edição em CD e tivesse um propósito específico para tal nova ordenação, mas isso só ela pode responder... Urban Bass recebeu uma segunda versão em CD, em 94, pelo também francês “L'Empreinte Digitale", com uma nova capa. Mais recentemente, em setembro de 2018, o registro foi relançado uma vez mais – o que sempre é uma boa notícia, pois significa manter esta preciosa música em catálogo –, como parte de uma nova coletânea, “Double Bass”, recebendo o subtítulo “Verso”, estranhamente em mais um processo de diluição da edição original. A quem for ouvir esta música, independentemente da versão a que tiver acesso, recomendamos se atentar à sequência original dos temas e à capa com a qual apareceu pela primeira vez.O lançamento da nova edição de Taxi - Contrebassiste (que, enfim, preserva todas os detalhes da versão original) está programado para o dia 23 de outubro, a preço oficial de 28 euros. Mas o LP – que foi remasterizado especialmente para esta edição – pode começar a ser enviado já em meados de setembro, mês em que Joëlle Léandre completa 76 anos. Um presente para ela ou para os ouvintes?
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)





