CLEAN FEED: um adeus em grande estilo


Gravadora portuguesa que por duas décadas e meia brindou os amantes da free music com muita coisa excitante, Clean Feed dá seu adeus...  

 

Por Fabricio Vieira

A Clean Feed não poderia encerrar sua história de forma mais simbolicamente precisa. A escolha da música de Sei Miguel para o derradeiro álbum da histórica gravadora portuguesa foi perfeita. Afinal, Sei Miguel representa um pouco (ou melhor, muito) do que de mais excitante surgiu na música livre e criativa de Portugal. E a Clean Feed foi (é) a mais importante gravadora do país a registrar essa música. Surgida em 2001, a Clean Feed se manteve ativa por longos 25 anos e montou um impressionante catálogo. Foram mais de 800 títulos de música fresca e original, editados a maioria em CD, mas também com exemplares em LP, contando a marca principal e os subselos Trem Azul e Shhpuma. Ter no mínimo algumas dezenas desse incrível material é obrigatório para qualquer colecionador de discos interessado em free music. Em comunicado, o fundador Pedro Costa diz: “A empresa continuará a funcionar, vendendo o catálogo antigo e organizando e fazendo curadoria de alguns festivais, mas não haverá mais novos lançamentos”. Difícil escapar de certa melancolia ao ler tais palavras...

Se desde seu início foi se demarcando como um espaço de apresentação da música criativa feita em Portugal, a Clean Feed nunca desejou se restringir a isso, sempre estando aberta a sons do mundo todo, com novatos e veteranos do free jazz deixando seus registros na editora e fazendo dela uma referência global, aparecendo ano após ano entre as gravadoras de destaque nessa seara sonora. Até mesmo músicos brasileiros deixaram sua marca no catálogo: Ivo Perelman lançou por lá “Black on White” e “Soulstorm”; Alípio C Neto apareceu com “The Perfume Comes Before The Flower”; e mais recentemente Yedo Gibson e Felipe Zenícola soltaram dois registros do explosivo trio Move pelo selo.


Viva! O Carro de Fogo de Sei Miguel, o álbum que acaba de sair para encerrar a trajetória da Clean Feed, traz duas gravações ao vivo, captadas em janeiro e fevereiro de 2023 no ZDB e no SMUP, dois espaços fundamentais para a circulação da melhor música criativa e underground da cena portuguesa. Sei Miguel, morto precocemente em novembro de 2025, criou o projeto O Carro de Fogo, síntese de suas ideias criativas, em 2012 – um grupo que já foi chamado de small orchestra of all fusions. Para colocar seu Carro de Fogo em ação, ele trouxe para dialogar com seu pocket trumpet a trombonista Fala Mariam, o saxofonista Nuno Torres, Bruno Silva (guitarra), Pedro Lourenço (baixo elétrico), André Gonçalves (órgão), Luis Desirat e Raphael Soares (percussão). O registro traz as duas apresentações sem cortes, uma em cada CD, com 55 e 52 minutos. Temos aqui uma música de árido lirismo, que sabe navegar por trilhas mais silenciosas, sem deixar de embarcar em pontos de ruptura, com ataques mais diretos acordando a escuta, sempre em um diálogo coletivo improvisativo que, se muito livre, não deixa de carregar as ideias pensadas e ruminadas por Sei Miguel. 
Editado em CD duplo e digital, o álbum ficará como uma despedida em alto estilo, tanto do músico quanto da gravadora. [ouça a nossa Playlist com faixas de 25 discos fundamentais que marcaram os 25 anos da Clean Feed]


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)