Satoko Fujii: 5x Orquestra


LANÇAMENTOs
A pianista e compositora japonesa Satoko Fujii prepara a edição de 5 novos álbuns dedicados a seus projetos orquestrais... 


Por Fabricio Vieira

Com mais de três décadas de carreira e mais de 100 discos editados, a pianista e compositora japonesa Satoko Fujii é uma das vozes de maior relevo da música livre e criativa contemporânea. Algo diferencia Fujii de muitos outros prolíficos artistas da free music: ela atua em todas as frentes. De projetos solistas a orquestras, nenhuma formação escapa de sua verve criativa. Mais, ainda: ela não é apenas uma improvisadora refinada e afiada, é uma compositora de excelência. E o foco neste momento é para uma dessas suas faces: a orquestral. Neste segundo semestre do ano, Fujii editará cinco álbuns dedicados a essa seara, um a cada mês.

Quem abre a sequência de lançamentos é Bunker Ulmenwall Orchestra. Este registro vem dos arquivos e traz uma apresentação realizada em 22 de novembro de 2014 na Bunker Ulmenwall, uma sala de concertos instalada em um antigo abrigo antiaéreo da Segunda Guerra, na cidade alemã de Bielefeld, no estado da Renânia. O produtor do evento, Wolfgang Gross, então gravou a apresentação apenas para deixar um registro. E a gravação permaneceu por mais de uma década esquecida em um pen drive, até ser resgatada no ano passado. “He sent me the recording and I was amazed at how beautifully we played, and with so much energy”, diz Fujii. Esta orquestra foi formada especialmente para o concerto, contando com músicos profissionais e estudantes locais, em um total de 17 instrumentistas, entre muitos sopros, guitarra, violoncelo, piano, contrabaixo, eletrônicos e duas baterias. O resultado daquela noite são 87 minutos de música, editada agora em disco duplo. O CD 1 traz apenas uma longa peça de Fujii, “Shiki”, com quase 47 minutos. No CD 2, o ouvinte encontra quatro faixas de extensões menores, sendo uma composição do trompetista Natsuki Tamura, uma do saxofonista baixo Andreas Kaling e outra assinada pela saxofonista alto Luise Volckmann. O disco fecha com “Gen Himmel”, uma mais contemplativa (apesar da energia em crescendo) e breve peça de Fujii.


O segundo título desta coleção orquestral (está no forno, sai em 7 de agosto) é After The Storm. Concebida durante a pandemia, After The Storm é uma suíte em quatro partes, composta em um momento em que a artista imaginava o mundo pós-pandêmico e de como ele poderia ser mais pacífico, humanista, menos violento – mas as coisas, na verdade, parecem cada vez piores, diz ela. A gravação de After The Storm só aconteceu neste ano, no começo de fevereiro, neste decepcionante mundo pós-pandêmico. O registro foi feito num conhecido espaço da cena independente japonesa, o Big Apple, em Kobe. A ideia não era gravar um show, mas fazer uma apresentação com o foco em ser gravada: ou seja, se achassem que algo estava errado durante o processo, a ordem era parar e recomeçar, pois o foco era a gravação, não o público (limitadíssimo, vale dizer: apenas 20 pessoas estavam lá presenciando). Comandando a japonesa Orchestra Kobe, que conta com 15 instrumentistas, Fujii pôde enfim tirar do papel aquela composição cheia de esperança que havia composto anos antes, agora inevitavelmente afetada pela decepção com o mundo pós-tempestade. After The Storm traz cerca de uma hora de contagiante música, desenvolvida em quatro partes. Ambos os discos saem em formato digital e CD, pelo selo Libra Records. Os próximos lançamentos desta série serão: Satoko Fujii Orchestra Nagoya (sai em 4 de setembro); Satoko Fujii Orchestra Berlin (2 de outubro); e Satoko Fujii Orchestra Tokyo (6 de novembro).


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)