MADE IN JAPAN

LANÇAMENTOs Do Japão, um dos palcos mais intensos e vivos da free music, vem essa muito potente leva de novos álbuns (curiosamente, praticamente só duos)... 

 

Por Fabricio Vieira

  

Shutsumin

Otomo Yoshihide & Kei Matsumaru

Trost

Gravado no lendário clube Pit Inn, no boêmio bairro de Shinjuku, em Tóquio, em abril de 2024, Shutsumin une as forças criativas da lenda Otomo Yoshihide e da nova promessa do sax japonês, Kei Matsumaru. Nascido em Chiba em 1995, mas tendo crescido na Papua Nova Guiné, Matsumaru tem ganhado crescente destaque na cena japonesa e mostra aqui que está pronto para dialogar com propriedade com um músico que já era famoso quando ele veio ao mundo. Shutsumin, o título do disco, é uma palavra que se refere ao estado de transição entre o sono e a vigília. Se há algo de onírico aqui, deve vir mais daqueles angustiosos momentos em que não se consegue acordar, engolfado em sufocantes alucinações e devaneios. As oito peças, nas quais o duo explora guitarra, turntable (Otomo), saxes alto e soprano e eletrônicos (Kei), passam pelo ouvinte como um conjunto muito bem amarrado, nada de ruído por ruído, um free impro feito com muito sensibilidade criativa. Da abertura direta e corrosiva com “Kanashibari” ao desfecho épico com “Meisekimu”, um registro de excelência ruidosa. Editado em digital e CD.

 


Tunnel Vision

Sae Hashimoto & Brian Marsella

Red Palace Records

A vibrafonista Sae Hashimoto é um dos nomes nipônicos que têm feito sua carreira na cena nova-iorquina. Temos ouvido o trabalho dela nos últimos anos em diferentes projetos, com boa parte desses registros aparecendo no selo Tzadik, de John Zorn. Neste círculo, tem tocado bastante com gente como sua conterrânea Ikue Mori e o pianista Brian Marsella. E é exatamente com este último que a vemos em duo neste novo disco. Tunnel Vision foi registrado em março de 2025 no Oktaven Audio (Mount Vernon, NY), um estúdio focado em clássico e jazz que conseguiu deixar um registro límpido e preciso. É um dueto de fascinante resultado com 8 peças de sonoridades inebriantes, onde a experiência erudita de Sae deixa também suas marcas. Indo de peças mais líricas e delicadas, como “Unsen Color Wheel”, a outras mais intensamente destiladas, bailantes até, como “The Centrifugal Force That Keeps Us Intact”, Tunnel Vision é um álbum que não tem como deixar o ouvinte distraído. Editado em digital e CD.

 

 

Bardo Thodol

Merzbow & Pedro Vian

Modern Obscure Music

Masami Akita ruma para completar cinco décadas comandando seu projeto noise sob a alcunha Merzbow. Tanto tempo passado e algumas centenas de álbuns (sim, centenas), Merzbow ainda mantém sua demolidora força criativa em alta ebulição – ele tocou há pouco em Barcelona, no Primavera Sound, em apresentação lotada que mostra ainda ser um nome que todos interessados em ruidosidades querem apreciar. Neste novo álbum ele está ao lado de Pedro Vian, artista catalão, de Barcelona, sendo esta a terceira colaboração entre eles (as outras duas renderam outros dois LPs, editados nos dois últimos anos, pelo mesmo selo). Este novo disco é apresentado como sendo algo mais introspectivo (pensando em Merzbow ou mesmo comparando com as colaborações anteriores deles, isso tem seu sentido), tratando-se de um trabalho que tem como inspiração o Livro Tibetano dos Mortos. São duas longas peças, uma preenchendo cada lado do LP (publicado em versão limitada de 250 cópias).

 


Sun’s Blessings

Sabu Toyozumi & Sunny Murray

NoBusiness Records

Este é mais um dos fundamentais e surpreendentes resgates de material histórico inédito que o selo lituano NoBusiness Records tem feito. Dois pioneiros do free jazz, Sunny Murray (1936-2017), nos EUA, e Sabu Toyozumi (nascido em 1943), no Japão, unem forças neste fulminante encontro captado no fim do século XX. Toyozumi, no começo dos anos 1970, cruzou o oceano para ir beber na fonte, desembarcando em Chicago e sendo o primeiro estrangeiro a ser aceito nas fileiras da AACM, selando a conexão EUA-Japão free. Aqui são duas escolas e duas personalidades distintas da percussão livre em ação, em um diálogo que, ao vivo, deve ter sido extra animado (em dezembro de 2011, Toyozumi esteve no Brasil e fez apresentações em duo com a lenda local Panda Gianfratti, no CCSP; quem esteve lá pode vislumbrar como deve ter sido o encontro agora publicado). Sun’s Blessings vem de um concerto que os dois percussionistas deram em abril de 1999 no Zippy Hall, em Sapporo, no Japão. São duas faixas, a longuíssima “Mischievous Saga”, com quase 50 minutos, e um bis com o preciso nome “Brave Warriors”. Editado em digital e CD.

 


Katarahi

Satoko Fujii & Myra Melford

RogueArt

Duos de piano são encontros que podem se revelar muito especiais. Claro que para isso os instrumentistas envolvidos têm que estar abertos a um diálogo franco e generoso – para fluir, nenhuma das vozes deve desejar assumir papel protagonista, equilíbrio é a palavra que deve comandar este jogo. Satoko Fujii e Myra Melford sabem bem disso e, mais ainda, têm um muito longo diálogo aberto. Elas se conhecem desde a década de 90 e, em diferentes oportunidades, compartilharam ideias, tendo já feito do duo de pianos uma forma de comunicação expressiva valiosa (veja que beleza este encontro delas em 2012). E é muito prazeroso que um de seus recentes duos tenha virado um novo álbum. Katarahi traz o concerto que Fujii e Melford deram no Leibnitz Jazz Festival, em setembro de 2024. São 51 minutos de música encantadora, dividida em sete faixas (vale notar que não se trata puramente de improvisação livre, sendo creditadas metade das peças a cada uma das pianistas). O título do álbum, Katarahi, foi dado por Fujii, sendo uma palavra japonesa que significa uma conversa franca entre amigos íntimos. Nada mais apropriado para um registro de beleza pura como este. Em CD e digital.

 


A Different Sway o’ da Weep

Ayumi Ishito & Daniel Carter

Independente

Natural da Província de Ishikawa, a saxofonista japonesa Ayumi Ishito desembarcou nos EUA pouco mais de uma década atrás para dar continuidade à sua formação. Primeiramente passou pelo Berklee College of Music. Depois foi se integrando à cena avant-garde de Nova York. E foi aí que nasceu esta parceria com o veterano Daniel Carter. O duo, que eles chamam de Endless Season, chega agora a seu segundo álbum. A Different Sway o’ da Weep foi registrado em outubro de 2025 no conhecido Park West Studio, no Brooklyn nova-iorquino, do sempre preciso Jim Clouse. São seis peças mais climáticas que enérgicas. Apesar de ser, a priori, um encontro entre dois saxofonistas, o que vemos aqui é uma exploração de atmosferas com a utilização de elementos (batidas, teclados) eletrônicos que criam um som por vezes estranho, que pode remeter inclusive a certas trilhas dos distantes anos 80. Em uma das peças, “Wake of Shards”, junta-se a eles a baterista japonesa Yuko Togami (e daí vem um pouco do melhor do álbum). Publicado em digital e CD.

 


Parientes de la Vida

K Trio

577 Records

Este trio japonês oferece um trabalho bastante particular. Unindo o poeta Kei, o guitarrista Takao Miyazaki e o multi-instrumentista Yoichi Ichikawa, o K Trio é uma das surpresas boas do ano. Parientes de la Vida (não descobri o motivo do título em espanhol) foi gravado em três espaços de tamanho e acústica diferentes, como forma de poder ampliar as explorações sonoras que o trio propõem. As gravações ocorreram em dezembro de 2025 e março de 2026. “Kei writes and reads poetry, while Takao and I improvise using guitar, piano, electronic instruments, and various objects. Along with the one-time nature of improvisation, we are interested in the relationship between sound, space, and recording. For this project we experimented with performing and recording in different environments”, diz Yoichi. Não há muita informação disponível por aí sobre o projeto, mas o Bandcamp do K Trio tem outros (cerca de uma dúzia) registros, tudo ao vivo composto em sua maioria por uma só faixa, captados a partir de 2023. Claro que não compreender a poesia (não entender japonês) faz com que a fruição dessa música seja algo manca (ou, ao menos, diferenciada, já que as palavras se tornam apenas mais uma sonoridade em interação com os outros instrumentos). Mas é uma experiência sem dúvida muito interessante. O álbum será lançado em 7 de agosto, versão limitadíssima de 50 cópias em CD.   

 


Kawashima x Yamazaki

Makoto Kawashima & Hiroshi Yamazaki

UFO Creations

Este é um empolgante e quente encontro de gerações da cena free japonesa. O veterano baterista Hiroshi Yamazaki, nascido em 1940 em Tóquio, une forças com o saxofonista Makoto Kawashima, que nasceu em 1981 em Saitama. A reunião aconteceu no pequeno clube Koen-Dori Classics, no boêmio bairro de Shibuya, em julho de 2025. Yamazaki fez parte da primeira geração de free jazzistas japoneses, tendo gravado muitos clássicos (ele aparece inclusive no marco zero do jazz moderno japonês, o álbum “Ginparis Session”, de 1963), com destaque especialmente para o longo tempo em que tocou nas bandas do guitarrista Masayuki Takayanagi. Aqui, então com 85 anos, ele mostra ainda ter fôlego para participar de uma sessão de energy music em modelo clássico de duo de sax-bateria. O resultado é apenas uma faixa, inominada, meia hora de incontornável fogo acústico. Editado pelo selo chinês UFO Creations, que está montando um interessante catálogo do underground sonoro, sai em digital e CD (edição limitada de 100 cópias).

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)