LITERATURAs: Incendeie meu Coração, de Izumi Suzuki


CRÍTICAs
Mais um título da cultuada escritora japonesa Izumi Suzuki chega ao Brasil, desta vez um romance sobre a cena underground dos anos 70... 



Por Fabricio Vieira

Uma grande surpresa se deparar com a notícia de que a editora DBA iria publicar mais um título da escritora japonesa Izumi Suzuki (1949-1986). Em 2024, a editora trouxe ao português pela primeira vez um livro da autora, a coletânea de contos de ficção científica Tédio Terminal. Se ali tínhamos o cartão de visitas básico de sua obra, já que foi como autora de sci-fi que Suzuki fez seu nome na contracultura de seu país, agora temos a oportunidade de ver outra face de seu trabalho. Incendeie meu Coração, o romance que está chegando (em tradução direta do japonês pelo sempre competente Jefferson José Teixeira), é uma obra que trata da cena underground japonesa dos anos 70, por onde a autora circulou e se tornou um de seus ícones. Publicado originalmente em 1983, poucos anos antes de sua morte, o livro é um fino testemunho literário das próprias vivências de Suzuki.

Incendeie meu Coração – ao qual muitos ficarão tentados a grudar o preguiçoso e insosso rótulo de autoficção... Ou, pior ainda, falar em autobiografia, como outros vêm fazendo por aí... “Emma Bovary c’est moi!” – é arquitetado em 13 relativamente breves capítulos. De linguagem certeira, com muitos diálogos e cenas ágeis, o romance envolve rapidamente, fazendo desta uma leitura que se adentra sem querer interrupções. Izumi (nome que a protagonista ecoa de sua criadora) nos leva pelas noites de Tóquio e Yokohama dos inflamados anos 70. Com seus vinte e poucos anos, ela, uma modelo de poucos trabalhos, vive seus dias, muitos deles ao lado da amiga jornalista Etsuko, com a intensidade no limite, em meio a álcool e drogas, relacionamentos passageiros e muita música, retratando as pessoas e a cultura que compunham as cenas alternativas dos clubes da época. O rock está no centro aqui, representado especialmente pela cena dos Group Sounds, as bandas japonesas de garage. Um dos romances destacados de Izumi é com Joel, que faz parte de uma dessas bandas, a ficcional Green Glass – inspirada, por sua vez, no The Golden Cups, grupo de grande sucesso no Japão a partir do fim dos anos 60, cujo hit “This Bad Girl” nomeia o primeiro capítulo. Importante dizer que cada um dos 13 capítulos recebe o nome de uma canção da época, entre músicas internacionais e japonesas. Há peças mais desconhecidas e outras hoje meio esquecidas, em meio a hits que já foram globais, a destacar “Nights in White Satin”, dos britânicos do The Moody Blues; “Gimme Little Sign”, do cantor americano de R&B Brenton Wood; e a matadora “Keep Me Hangin’ On”, do Vanilla Fudge. (ler o livro acompanhado de uma playlist dos títulos dos capítulos rolando cria o clima ideal e faz o livro fluir com outro sabor.)

Mas nem só de rock vive Izumi. Se a autora encontrou no seu caminho Kaoru Abe, a protagonista vai cruzar com Jun, ambos trágicos saxofonistas de jazz. A conturbada relação entre Izumi Suzuki e Kaoru Abe (1949-1978), que se estendeu de 1973 até a morte dele por overdose de barbitúricos – retratada no romance “Endless Waltz” (1992), da escritora Mayumi Inaba, que depois inspirou o filme de mesmo nome dirigido, em 1995, pelo lendário Kôji Wakamatsu –, é um ponto de inegável atração ao livro para os fãs de free jazz. Mas aqui é a voz de Izumi que nos guia, então não veremos um passeio pela incendiária cena jazzística alternativa japonesa (vale citar que, após a morte de Jun, seus amigos organizam um evento memorial, e a narradora diz: “como odeio jazzistas, não compareci”). “Conheci Jun numa ligação telefônica que deu errado”, diz a protagonista na abertura do capítulo “Time of the Season” (referência a uma música da banda britânica The Zombies), que chega apenas depois da metade do livro. E aí adentramos o turbulento relacionamento deles. Passarão cerca de 50 páginas até lermos: “Jun morrera. Os cinco anos que vivi com ele me pareceram cem”. Intensidade é a palavra-chave dessa vivência. Mas saltam a nossos olhos contemporâneos o caráter destrutivo dessa relação, o abuso psicológico, a violência física. Izumi sobrevive a esse ambiente sufocante e chega ao fim da obra refletindo sobre como é alcançar os 29 anos, e tudo o que ficou para trás, o que foi e o que poderia ter sido. “Voltando a ficar sozinha, sinto que fui enganada. (...) Meu tempo foi roubado.” (Izumi Suzuki se enforcaria apenas três anos após editar este livro.)

Incendeie Meu Coração é um lançamento muito bem-vindo, um livro que deve alcançar diferentes públicos, dentre os que buscam novidades de literatura do Japão ou especificamente escritoras japonesas, os fãs de sci-fi que a conheceram por Tédio Terminal ou mesmo o povo do free jazz que tem Suzuki no imaginário por seu relacionamento com Abe. Independentemente de qualquer um desses estímulos, trata-se de uma leitura imperdível; Izumi Suzuki é uma escritora com muito a dizer, que merece ser descoberta.  

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)