ALICE COLTRANE: Ashram Tapes


LANÇAMENTOs
A encantatória música devocional de Alice Coltrane, produzida nas décadas de 80 e 90, é resgata em novas edições... 

 

Por Fabricio Vieira

Em 2027 serão rememoradas duas décadas da passagem de Alice Coltrane (1937-2007). Mas temos visto uma antecipação das homenagens com uma série de lançamentos de material da idolatrada artista. Após a edição da mais ampla biografia dedicada a ela – “Cosmic Music: The Life, Art, and Transcendence of Alice Coltrane” –, agora é a vez de chegar material em áudio e vídeo muito bem-vindos já que, se não inéditos, eram de difícil acesso. A começar por Eternity’s Pillar, um blu-ray duplo que apresenta 17 episódios de um programa de TV que foi ao ar entre 1985/88, comandado por Alice. Veiculado originalmente pelo canal independente de Los Angeles KTTV Channel 11, o programa passava nas noites de domingo e apresentava uma combinação de música, meditação, cantos e ensinamentos, explorando uma estética de videoarte de vanguarda (segundo descrição do Criterion Channell, que tem 4 episódios em sua grade nos EUA). Um documento conhecido por poucos e que em muito enriquece e amplia nossa aproximação ao mundo de Alice Coltrane Swamini Turiyasangitananda e o que ela vinha artisticamente produzindo na década de 1980, quando se afastou da cena jazzística. As masters foram garimpadas no arquivo da família Coltrane. Como bônus está incluído o minidocumentário do Black Journal, de 1970, gravado na casa de Alice e em uma apresentação em um centro cultural (vídeo que passou a circular nos últimos anos).


Da mesma época, finalmente serão editadas de forma comercial as gravações feitas por Alice Coltrane quando passou a se dedicar integralmente à sua vida espiritual. Trata-se de quatro registros, gravados entre 1981 e 1995, que à época saíram de forma independente, em K7 (o último deles em CD), sendo distribuídos apenas em seu ashram, o Vedantic Center, no sul da Califórnia, pelo selo Avatar Book Institute. São eles: Turiya Sings, Divine Songs, Infinite Chants e Glorious Chants, que sairão Matador Records em CD e LP em data a ser anunciada em breve. Nos anos 2000, esses álbuns começaram a ser mais conhecidos, ao circularem pela Internet em arquivos digitais, muitas vezes de baixa qualidade (não faltaram também algumas versões piratas por aí). Até que em 2017, o selo Luaka Bop editou uma coletânea, “The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda”, que trazia peças selecionadas de “Divine Songs”, “Infinite Chants” e “Glorious Chants”. Em 2021, foi a vez de o selo Impulse!/UMe reeditar “Turiya Sings”. 

Diferentemente do que o release da Matador Records anuncia (“The recordings blend gospel, traditional Indian chants, and avant-garde jazz”), esqueçam a face avant-garde jazz de Alice aqui. Não se trata disso, estamos em outro universo. As buscas, interesses e caminhos trilhados nas décadas de 1980 e 90 por ela eram outros. A curiosidade em relação à essa música nasce por outras vias. E há, sim, muita coisa de interesse aqui: Alice foi artista maior, profunda e sensivelmente musical, independentemente de seu foco no momento. Os quatro álbuns que serão reeditados, se unos, são diversos, trazendo experiências auditivas e expressivas diferentes, mas sempre recompensadoras. “Divine music is a curative virtue; it is a gift from God that brings healing and comfort to the soul. This music can uplift one’s spirit up to a higher dimension of being that is filled with peace and joy. Divine music is the sound of true life, wisdom, and bliss. This music transcends geographical boundaries, language barriers, age factors; and whether educated or uneducated, it reaches deep into the heart and soul, sacred and holy, like an Infinite sound of glory entering the Lord’s sanctuary”, dizia Alice sobre esses trabalhos.

 


*OS ÁLBUNS QUE SERÃO REEDITADOS*


Turyah Sings 1981, K7. Gravado originalmente apenas para voz e órgão (assim editada pela Impulse), teve adição de cordas e sintetizador no Redwing Sound, sendo esta a versão que saiu em K7 em 82 e que será lançada agora (como ouvinte, prefiro a versão crua, só voz e órgão, muito mais tocante). Apresenta 9 peças, sendo um álbum que poderíamos chamar de solista.



Divine Songs 1987, K7. Aqui Alice (órgão Wurlitzer, sintetizador, voz) amplia o grupo com backing vocals e percussão de estudantes do Vedantic Center. Não aparece nos créditos originais, mas há adição em alguns temas de harpa, sitar e cordas. São 9 peças, sendo apresentadas pela artista no texto de contracapa como bhajans, ou cânticos devocionais indianos, que são reimaginados por ela.  


Infinite Chants 1990, K7. Se a devoção é a mesma, este disco é bastante diferente dos anteriores. Nota-se que os álbuns vão progressivamente ampliando sua sonoridade. E aqui o coro de estudantes do Vedantic Center está no centro da música. Alice se concentra em órgão e sintetizador. Há ainda a participação vocal de John Panduranga Henderson, conhecido por trabalhar com Ray Charles na década de 70 e que depois entrou para o ashram de Alice. 


Glorious Chants 1995, CD. O último dos álbuns frutos do ashram editados por Alice é, em certo aspecto, também o mais complexo. Além dos já habituais órgão e sintetizador e o coro dos estudantes, foram convidados dois cantores indianos, Sandhya Sanjana e Sairam Iyer, e em uma das peças há a dição de flauta. Afora os cânticos devocionais, há uma muito particular versão de “Journey to Satchidananda”.




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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)