LANÇAMENTOs A encantatória música devocional de Alice Coltrane, produzida nas décadas de 80 e 90, é resgata em novas edições...
Por Fabricio Vieira
Da mesma época, finalmente serão editadas de forma comercial as gravações feitas por Alice Coltrane quando passou a se dedicar integralmente à sua vida espiritual. Trata-se de quatro registros, gravados entre 1981 e 1995, que à época saíram de forma independente, em K7 (o último deles em CD), sendo distribuídos apenas em seu ashram, o Vedantic Center, no sul da Califórnia, pelo selo Avatar Book Institute. São eles: Turiya Sings, Divine Songs, Infinite Chants e Glorious Chants, que sairão Matador Records em CD e LP em data a ser anunciada em breve. Nos anos 2000, esses álbuns começaram a ser mais conhecidos, ao circularem pela Internet em arquivos digitais, muitas vezes de baixa qualidade (não faltaram também algumas versões piratas por aí). Até que em 2017, o selo Luaka Bop editou uma coletânea, “The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda”, que trazia peças selecionadas de “Divine Songs”, “Infinite Chants” e “Glorious Chants”. Em 2021, foi a vez de o selo Impulse!/UMe reeditar “Turiya Sings”.
Diferentemente do que o release da Matador Records anuncia (“The
recordings blend gospel, traditional Indian chants, and avant-garde jazz”),
esqueçam a face avant-garde jazz de Alice aqui. Não se trata disso, estamos em
outro universo. As buscas, interesses e caminhos trilhados nas décadas de 1980
e 90 por ela eram outros. A curiosidade em relação à essa música nasce por
outras vias. E há, sim, muita coisa de interesse aqui: Alice foi artista maior,
profunda e sensivelmente musical, independentemente de seu foco no momento. Os
quatro álbuns que serão reeditados, se unos, são diversos, trazendo
experiências auditivas e expressivas diferentes, mas sempre recompensadoras.
“Divine music is a curative virtue; it is a gift from God that brings healing
and comfort to the soul. This music can uplift one’s spirit up to a higher
dimension of being that is filled with peace and joy. Divine music is the sound
of true life, wisdom, and bliss. This music transcends geographical boundaries,
language barriers, age factors; and whether educated or uneducated, it reaches
deep into the heart and soul, sacred and holy, like an Infinite sound of glory
entering the Lord’s sanctuary”, dizia Alice sobre esses trabalhos.
*OS ÁLBUNS QUE SERÃO REEDITADOS*
Turyah Sings 1981, K7. Gravado originalmente apenas para voz e órgão (assim editada pela Impulse), teve adição de cordas e sintetizador no Redwing Sound, sendo esta a versão que saiu em K7 em 82 e que será lançada agora (como ouvinte, prefiro a versão crua, só voz e órgão, muito mais tocante). Apresenta 9 peças, sendo um álbum que poderíamos chamar de solista.
Divine Songs 1987, K7. Aqui Alice (órgão Wurlitzer, sintetizador, voz) amplia o grupo com backing vocals e percussão de estudantes do Vedantic Center. Não aparece nos créditos originais, mas há adição em alguns temas de harpa, sitar e cordas. São 9 peças, sendo apresentadas pela artista no texto de contracapa como bhajans, ou cânticos devocionais indianos, que são reimaginados por ela.
Infinite Chants 1990, K7. Se a devoção é a mesma, este disco é bastante diferente dos anteriores. Nota-se que os álbuns vão progressivamente ampliando sua sonoridade. E aqui o coro de estudantes do Vedantic Center está no centro da música. Alice se concentra em órgão e sintetizador. Há ainda a participação vocal de John Panduranga Henderson, conhecido por trabalhar com Ray Charles na década de 70 e que depois entrou para o ashram de Alice.
Glorious Chants 1995, CD. O último dos álbuns frutos do ashram editados por Alice é, em certo aspecto, também o mais complexo. Além dos já habituais órgão e sintetizador e o coro dos estudantes, foram convidados dois cantores indianos, Sandhya Sanjana e Sairam Iyer, e em uma das peças há a dição de flauta. Afora os cânticos devocionais, há uma muito particular versão de “Journey to Satchidananda”.
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)







