LANÇAMENTOs A
música instrumental mais avançada feita no país ganha dois lançamentos imperdíveis...
Por Fabricio
Vieira
Lagrima/ Sursolide Suite
Lelo Nazario
Utopia Studio
O pianista e compositor
Lelo Nazario tem finalmente sua
estreia solista reeditada.
Lagrima/ Sursolide Suite foi publicado originalmente
em 1982 pelo selo Lira Paulistana e assim ficou: para ouvir esta música até
agora, apenas tendo uma cópia do LP. Claro que no mundo ideal esse fundamental
álbum estaria sendo relançado em CD e LP também, mas não deixa de ser motivo a
se comemorar o fato de agora ser possível esta música chegar a muitos mais
ouvidos. O álbum traz apenas duas faixas, cada uma ocupava um lado do LP
original. “Lagrima” é uma peça solista, na qual Nazario toca o mesmo piano
eletroacústico Yahama CP-70, do Estúdio JV, em São Paulo, com que havia gravado
pouco antes “Reflexões sobre a crise do desejo”, com o Grupo Um. Já “Sursolide
Suite” é uma muito ousada e inspirada peça para piano e dois contrabaixos,
tocados pelos parceiros de longa data Zeca Assumpção e Rodolfo Stroeter. “
Eu
estava procurando criar algo que contivesse tanto partes escritas quanto
trechos de improvisação livre”, explica Lelo no release.
“Lagrima, de certa
forma, já apresentava essa característica. (...)
Sursolide Suite (...)
alterna
segmentos escritos e segmentos abertos, até chegar a uma seção aberta mais
longa, seguida por uma parte escrita no final. E é isso que há de mais
interessante nas duas composições.” Em especial, “Sursolide Suite” realmente soa
como peça única no cenário brasileiro em que foi gestada e redescobri-la nos
faz repensar os rumos e frutos da vanguarda instrumental brasileira daquele
tempo. Lelo restaurou e remasterizou os áudios originais para este relançamento.
Não deixe de ouvir e se encantar.
Cello++/BR
William Teixeira
CDMC
Este álbum nos lembra como a música contemporânea (erudita,
de concerto, chame como preferir) nacional é pouco executada e, menos ainda,
gravada. Resultado de projeto conduzido pelo violoncelista e pesquisador
William Teixeira,
Cello++/BR revisita peças basilares desse repertório criadas
por compositores nacionais com enfoque em violoncelo e eletrônicos (como
explicita o subtítulo do disco:
Música brasileira para violoncelo e eletrônica).
A seleção das seis obras que compõem o álbum destaca o trabalho de nomes
centrais da nossa música, em faixas representativas de um leque de quase três
décadas, a começar por Jorge Antunes (com “Insubstituível 2a”, de 1967) e
rumando por Claudio Santoro (“Mutationen II”, 1970, que faz parte de uma muito
instigante série criada pelo compositor entre 1968 e 1976, focando diferentes instrumentos
solistas e, originalmente, fita magnética); Rufo Herrera (“Imagel”, 1988); Rodolfo
Caesar (“Arcos”, 1989); Rodrigo Cicchelli (“Latitudes Emaranhadas”, 1994); e Jocy
de Oliveira (“For Cello”, 1994, que teve recente fina apresentação na Motiva
Cultural quando da apresentação do premiado documentário “Universo Circular”,
dedicado à compositora). Ao que parece, a maioria dessas peças não tinha
registro em disco (ao menos conheço em CD apenas gravações das faixas de
Antunes e Jocy). As gravações foram realizadas ao longo de seis meses, o que
ilustra o esmero do trabalho de Teixeira. Como o disco foi apresentado como
inaugurando o catálogo do Selo CDMC (do Centro de Documentação de Música
Contemporânea da Unicamp), fica a expectativa de que mais deste precioso tipo
de material venha a público. Aliás, este foi apenas o primeiro volume de uma
planejada trilogia dedicada a violoncelo e eletrônica.
Cello++/BR já está
disponível nas plataformas digitais e receberá uma edição limitada em CD.
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)