UNIVERSO JOCY


FILMEs
 Novo documentário apresenta as múltiplas ideias da compositora e pianista Jocy de Oliveira... 

 

Por Fabricio Vieira 

Jocy de Oliveira completou 90 anos de idade no dia 11 de abril. Em atividade plena, lançou em 2024 o livro “Alucinações Autobiográficas” e verá sua mais recente ópera, “Realejo”, estrear no Theatro Municipal de São Paulo em outubro deste ano. Jocy, a maior compositora que o Brasil viu nascer, tem visto sua arte ser celebrada nos últimos anos, um reconhecimento que poderíamos chamar de tardio, mas, considerando ser ela uma artista de vanguarda, que bom que veio. E sua múltipla obra tem sido lembrada em espaços que extrapolam as salas de concerto, onde normalmente suas peças circulam. Se em 2007 ela foi homenageada pelo Festival Internacional de Música de Campos do Jordão, em 2008 foi a vez de o Instituto Cultural Oi Futuro, do Rio, organizar uma retrospectiva em torno de seu trabalho. Em 2018, ela foi convidada a abrir a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip); e em 2020 teve peças apresentadas no festival Novas Frequências. Agora é a vez de ela ser tema de um documentário (enfim!): Universo Circular – Jocy De Oliveira.


O filme, dirigido por Dácio Pinheiro, tem começado a ser apresentado ao público, tendo tido recente sessão no espaço Motiva Cultural (parte do complexo Sala de São Paulo), no começo de junho. Neste momento, está em cartaz no festival In-Edit Brasil. Universo Circular  Jocy De Oliveira é a homenagem que faltava para esta compositora que é reconhecida pelos grandes da música erudita contemporânea ao menos desde a década de 1960, quando ainda tinha a carreira de pianista como principal veículo. Próxima a algumas das maiores figuras musicais do século XX, em especial Igor Stravinsky, Luciano Berio e John Cage, Jocy foi desenvolver o principal de sua obra – representado por suas óperas multimídia – a partir dos anos 1980.

Dácio Pinheiro conta que conheceu Jocy lá para 2017, quando trabalhava no documentário “Eletronica:mentes”, que retrata a ascensão da música eletrônica no Brasil a partir dos anos 60 e que conta com participação da compositora. E daí surgiu o desejo de dedicar um trabalho à artista. Universo Circular é uma saborosa entrada no mundo de Jocy de Oliveira. O filme é focado nela mesmo: basicamente, apenas a artista fala (há somente algumas declarações pontuais de seu filho ou de pessoas de seu entorno ou que trabalham com ela); não se trata de um documentário declaratório-testemunhal e isso deixa o filme rolar de forma mais fluida e íntima. As falas de Jocy não vêm apenas da época da produção do documentário, havendo também testemunhos dela de outros tempos (algo que fica bem marcado não apenas pelas mudanças em sua fisionomia, mas também no tom de sua voz). Tendo um fio temporal, começando lá em seus tempos iniciais de pianista casada com o maestro Eleazar de Carvalho, não hesita em dar saltos tendo como enfoque o desenvolvimento de sua obra e conexões entre suas criações no decorrer das décadas. Dentre muita imagem de arquivo e trechos de suas óperas, temos dois núcleos espaciais: Jocy na intimidade do lar e durante a gravação da peça-vídeo “Noturno de um piano” (2006-07), com Gabriela Geluda em seu vestido branco naufragando junto ao piano que toca em meio ao mar. Se o caráter de apresentação de artista e sua obra está presente, não se trata de um filme didático: quem não conhece nada sobre Jocy e seu universo terá aqui é mais um estímulo para explorar isso do que uma confortável síntese. E isso pode ser encarado como um mérito do filme, algo que deve ajudar a animar espectador/ouvinte a se embrenhar pelo Universo Jocy. Hoje (dia 26/6) haverá a última sessão do documentário durante o In-Edit. Não viu? Não perca.

 

UNIVERSO CIRCULAR – JOCY DE OLIVEIRA

Dir.: Dácio Pinheiro

86 min.

*26/06 – Cine Bijou (SP), às 21h

    

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)