Um reencontro de dois pioneiros do free no Brasil


LANÇAMENTOs
  O saxofonista Ivo Perelman e o percussionista Cyro Baptista voltam a unir forças após três décadas em empolgante novo álbum... 


Por Fabricio Vieira

 

Desde a década de 1980, o saxofonista Ivo Perelman e o percussionista Cyro Baptista têm se aventurado pelos caminhos do jazz avant-garde, quando poucos se atentavam ainda a esse universo no país. Ambos oriundos de São Paulo, eles deixaram o Brasil para encontrar em Nova York uma cena na qual poderiam, enfim, dar asas à música que ansiavam desenvolver. Foi nos anos 90 que o caminho dos dois se cruzaram, resultando em registros editados sob o nome de Perelman à época. Era uma fase em que o saxofonista buscava na música brasileira inspiração para suas criações, na qual contou com a colaboração de importantes percussionistas nacionais: Naná Vasconcelos, Airto Moreira, Guilherme Franco e Duduka da Fonseca. Cyro Baptista – já então experimentado nome da cena Downtown nova-iorquina, envolvido com muitos projetos de John Zorn – entraria em estúdio com Perelman pela primeira vez naquela época, encontro que ficou registrado nos álbuns “Man Of The Forest” (1994) e “Brazilian Watercolour” (1996). Três décadas se passaram, e agora os vemos finalmente trabalhando juntos de novo. “Eu não tocava com o Cyro realmente há muito tempo”, diz Perelman.

O reencontro desses dois pioneiros do free brasileiro se deu em outubro de 2024, no Parkwest Studios, no Brooklyn novaiorquino. Sob os cuidados de Jim Clouse, a sessão rendeu seis faixas, agora reunidas neste Triacontagon. Aos dois músicos brasileiros se uniu também o guitarrista estadunidense Elliott Sharp, formando um trio que explora rumos sensorialmente muito estimulantes. Aliás, Sharp foi fundamental para essa parceria se concretizar. “Quando o Elliott Sharp e eu fizemos um duo, que faria parte do álbum Trifecta, a gente ficava batendo um papo entre uma gravação e outra ali no estúdio e ele falou que adoraria tocar com o Cyro, lembrou que ambos éramos brasileiros...”, conta o saxofonista. Poucos meses depois, os três instrumentistas entravam em estúdio para tocar juntos pela primeira vez.    

Triacontagon (nome de um polígono geométrico de 30 lados, que talvez represente as múltiplas facetas sonoras que esses músicos manejam) apresenta perto de 70 minutos de música, com quase todas as faixas se desenvolvendo por mais de 10 minutos. “Dionysus in the Amazon” abre o álbum de forma matadora, embalada por um riff simples que Sharp joga de um lado para o outro nos minutos iniciais, entre intervenções fritantes das cordas, e um sax que vai de linhas despreocupadamente melódicas a picos cortantes, tudo isso permeado pelo amplo arsenal percussivo de Baptista, que não poupa suas armas, inclusive a voz: muito frescor imaginativo agarrando o ouvinte sem rodeios. “Sacred Geometry of the Tropics” nos leva para outros moods, oferecendo possibilidades mais imersivas, com a guitarra em modo atmosférico e a percussão assumindo, sem ser invasiva, um espaço mais protagonista – a segunda metade da peça ganha um tom mais denso. “Inside a Broken Circle” coloca a guitarra mais em primeiro plano, com Sharp mostrando como sabe preencher os espaços e mexer com os sentidos. “Electric Bacchanalia” (impossível este título não ter sido dado por Cyro) tem na exploração de texturas e efeitos um de seus trunfos, com a percussão aqui e ali nos lembrando de onde Cyro vem (algo que fica ainda mais pontuado na abertura de “Irregular Forms in Humid Space”, com sua vibe algo sambística). “Disordered Continuum” fecha o álbum de forma intensa, sendo a mais concentrada peça (cerca de seis minutos), estando no lugar preciso para encerrar esse vibrante e muito particular encontro. Triacontagon está sendo editado em digital e CD pelo selo grego Defkaz Records. Para quem se empolgou com o resultado do encontro, vale dizer que o trio planeja uma tour pela Europa em 2027 (seria uma fantástica aposta para tocar por aqui também).    

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)