LANÇAMENTOs O sempre atento selo de Nova York
Relative Pitch
traz em seus mais recentes lançamentos artistas de diferentes cantos do mundo
com discos matadores (e tudo editado em CD)! Uma seleção que bem ilustra o
quanto a free music permanece viva e estimulante globo afora...
Por Fabricio Vieira
Penumbra
Ghazal Faghihi
Esta é a estreia solista de
Ghazal Faghihi, uma jovem clarinetista
vinda do Irã. Radicada na Bélgica, Faghihi tem formação clássica e vem ampliando
suas investigações sonoras nos campos da free improvisation, que agora temos o
prazer de descobrir com interesse. Ela faz parte do LIE (Laboratoire d’Improvisation
Expérimentale), de Bruxelas, e tem explorado também investigações eletrônicas,
com toda essa gama de sonoridades presente neste
Penumbra, onde toca clarinete Bb,
clarinete histórico, objetos e o instrumento indiano shruti box, além de interações
eletrônicas. São 13 peças, captadas em junho de 2025 na igreja Sint-Paulus, na
cidade belga de Ghent. “
It was born from a personal urgency of searching for
ways to keep creating sound in moments of uncertainty. It grew from a desire to
move beyond the limit of a single instrument, to experiment with different
materials, objects, and instruments. Merging, melting, creating, sounds, poems,
and acoustics that inspire me. Penumbra is a state of uncertainty and urgency,
moving with freedom and doubt, a fragile balance between order an chaos,
harmony and collapse. Existing in a space between light and shadow”, diz a artista.
Studio Recording
Ochibo no ame
A cena free/underground japonesa parece nunca parar. Afora
os nomes mais conhecidos, que circulam com frequência no Ocidente, quer seja
por meio de concertos, quer seja lançando discos, há com certeza uma infinidade
de artistas pouco ouvidos – apesar das facilidades do mundo digital para
divulgação de música nesses tempos, muita coisa continua ficando restrita às cenas
locais. O trio
Ochibo no ame é um muito interessante representante do free nipônico
contemporâneo. Aqui unem forças o saxofonista alto
Makoto Kawashima (que já
nos foi apresentado em gravações solistas no próprio Relative Pitch), o
baixista
Louis Inage (mais ligado à cena rock underground japonesa) e o
baterista
Naoto Yamagishi (que passou algumas temporadas na Europa, aparecendo
em gravações do Creative Sources).
Studio Recording foi gravado em abril de 2025
no lendário estúdio japonês Gok Sound. Free impro direto, centrado em uma única
faixa de 38 minutos, talvez menos enérgicos do que costumamos esperar de um
trio japonês, mas não menos interessante por isso.
Six or Seven Ways Towards Becoming Undone
Camila Nebbia & Chris Corsano
Camila Nebbia tem estado em tantos lugares, sempre de forma
marcante, que estamos inevitavelmente falando rotineiramente sobre ela e sua música. A
saxofonista argentina radicada na Alemanha tem se envolvido com projetos de
múltiplas perspectivas. E ouvi-la neste formato básico, mas central, do free
jazz é realmente prazeroso. Aqui a encontramos focada totalmente no sax tenor,
ao lado do incensado baterista, natural de New Jersey,
Chris Corsano. É um duo de
ideias precisas e certeiras, que cumpre com esmero as expectativas que surgem
quando vemos esses dois nomes juntos. O encontro se deu em 2025, no LowSwing
Records, em Berlim, e rendeu uma sequência de sete envolventes peças, que vão
de 2 a 12 minutos. Se há faixas mais divagantes, como “Nothing Is Fixed”, há
muita alta energia também presente aqui. O disco abre de forma fulminante com “Shattered
Things”, com seis minutos de fogo, que vai se diluindo até desaparecer em seus
momentos finais, fórmula que marca também a mais breve “Sunken House”. Disco
que bem representa a free music contemporânea.
Distractions for Trumpet & Ajaeng
Yoona Kim & Greg Kelley
A cena coreana passa longe de ter a amplitude e a
repercussão histórica da japonesa. Mas progressivamente vamos nos deparando com
nomes vindos da Coreia do Sul a trazerem ares novos à free music. Desta vez, quem está em destaque é
Yoona Kim. Ela toca
ajaeng, um instrumento de cordas
coreano apresentado como uma espécie de cítara, tocado com uma vareta fina de
madeira. Yoona Kim é originária de Seul e estuda seu instrumento desde a
adolescência, tendo se formado na Seoul National University. Seu próximo
passo foi ir para os EUA fazer Mestrado no New England Conservatory, onde
estudou com figuras como Anthony Coleman e Joe Morris, o que ajudou a levá-la a
adentrar mais o universo da free improvisation. Radicada em Boston, começou a
tocar com o trompetista
Greg Kelley, figura central da música experimental da
cidade. E foi lá em Boston que a dupla gravou este álbum, em julho de 2025. São
cinco faixas, que vão de 5 a 15 minutos, de tensos diálogos, por vezes algo cacofônicos, de ruidosidades e cortantes linhas exploratórias, com dois
instrumentos de histórias e possibilidades distintas gerando uma música de
sonoridade muito particular.
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)