Novos rumos (e sons) do Pyroclastic Records


LANÇAMENTOs Selo criado pela pianista Kris Davis há uma década, o Pyroclastic Records passa por mudanças em seu comando artístico (e segue editando boa música)...  

 

Por Fabricio Vieira

O Pyroclastic Records, selo independente criado pela pianista canadense Kris Davis, chega a uma década com um fino catálogo e mudanças no horizonte. O trompetista Nate Wooley passa a ser o diretor artístico do selo, sucedendo a fundadora Kris Davis, que irá se concentrar em seu trabalho como compositora e pianista. Fica a expectativa se Wooley, que tem um de seus últimos melhores trabalhos editados pelo selo, “Ancient Songs of Burlap Heroes” (2022), irá mudar de forma mais sensível a linha do Pyroclastic, que construiu um sólido catálogo focado na música livre e criativa contemporânea, com mais de 40 registros, de artistas como Patricia Brennan, Angelica Sanchez, Craig Taborn, Marilyn Crispell, Ches Smith, Sylvie Courvoisier e Mary Halvorson. E vale lembrar que tudo isso saiu em CD! “Since 2016, I’ve been watching Pyroclastic Records release some of the most consistently vital and interesting music of the 21st century”, disse Wooley. “I’ve been lucky enough to be counted among the label's artists, and I am proud now to become the new steward of its past and future as Kris moves on to the next phase of her career. I am looking forward to continuing Pyroclastic’s commitment to the power of big ideas, its dedication to the ideal of pure artistry, and to its continued support of a thriving musical community.

Antes de Wooley assumir a vaga, o Pyroclastic Records soltou alguns novos álbuns que merecem escuta atenta. Dois dos mais recentes registros trazem pianistas, com propostas diversas e resultados de alto nível. Editado no começo do ano, The Solastalgia Suite traz o mais recente e, em alguns aspectos, ambicioso projeto de Kris Davis. Trata-se de um quinteto para piano e cordas, composição de Davis que creio ser sua estreia no formato. Entre o erudito e jazz camerístico, o álbum apresenta uma suíte em oito partes. Para a empreitada, Davis se uniu ao polonês Lutoslawski Quartet, formado por Roksana Kwaśnikowska e Marcin Markowicz (violinos), Arur Rozmysłowicz (viola) e Maciej Młodawski (violoncelo). A origem da obra foi uma encomenda do Jazztopad Festival. Gravada em novembro de 2024, a suíte é perfeitamente ajustada, não havendo protagonismo do piano, como se poderia esperar, com as cordas por vezes sendo o núcleo onde as ideias se desenvolvem. Do lirismo melancólico de “An Invitation to Disappear”, passando pelo abstracionismo exploratório de “Towards No Earhly Pole” e a intensidade cortante de “Degrees of Separation”, The Solastalgia Suite é um marco na criativa discografia de Davis.

O outro disco de uma pianista, que acaba de sair, traz um material bastante distinto. The Button Jar apresenta a jovem pianista Yvonne Rogers, vinda do Maine e agora radicada na efervescente cena do Brooklyn novaiorquino. Formada em 2021 na Eastman School of Music/ University of Rochester, Rogers, de 26 anos, tem feito em anos recentes intenso mergulho na música criativa, tocando com gente como Ingrid Laubrock e Linda May Han Oh e desenvolvendo seus projetos. Ela estreou em 2023 com o disco “Seeds” (Relative Pitch) e agora está tendo a oportunidade de mostrar uma face mais de sua música. The Button Jar é um disco solista e, como tal, exibe a pianista desnudada, somente ela e sua música, o que sempre pode ser um desafio não pequeno para uma artista buscando seu espaço entre tanta música jogada no ar ininterruptamente. São14 peças, captadas em setembro de 2025, no Oktaven Audio, e produzidas por Kris Davis. “I grew up in the woods in the middle of nowhere, so I had a very special relationship to nature”, diz Rogers. “You sense that the world goes on without you, so the problems in your head don't really matter in the grand scheme of things. I want my music to do that for other people – to create a space for them to experience this feeling of wonder so that they can get out of their head for a few minutes.” O conjunto de peças apresentadas traz frescas ideias, de uma pianista que mostra uma voz já particular, com elementos jazzísticos e experimentais no ar. Com ideias bem focadas, as faixas são relativamente breves, indo de cerca de 2 minutos a no máximo 5 minutos, em uma música de um modo geral introspectiva, mas sem ser melancólica ou sombria. Uma promissora estreia de uma artista a se ficar de olho.     


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)