Um passeio de Mr. Sonny Rollins pelos campos do free jazz


Um dos maiores que o saxofone teve, Sonny Rollins foi um mestre que não limitou seu sopro, passeando com classe única por muitas searas jazzísticas...  


Por Fabricio Vieira

Sonny Rollins (1930-2026), que nos deixou nesta semana, aos 95 anos de idade, teve uma carreira que brindou os ouvidos atentos com muita música inigualável nas tantas décadas em que se manteve, em altíssimo nível, criando. Ele iniciou sua jornada profissional ainda bem jovem, aos 18 anos, nas trincheiras do bebop, e alcançou o degrau mais alto, sendo “o” saxofonista do momento, ainda com seus 20 e poucos anos, em meados da década de 1950, quando se tornou o nome mais incensado do hard bop. Apesar do sucesso e da unanimidade que sua música alcançou relativamente cedo, ele não demorou a enfrentar uma crise artística. E ainda antes dos 30 anos, o saxofonista resolveu parar com tudo e adentrar um período sabático, que se estendeu de meados de 1959 até o fim de 1961.

Durante esse período fora da cena, quem desejava encontrá-lo deveria ir à Williamsburg Bridge. Rollins passava os dias (e as noites) nessa ponte, que liga Manhattan ao Brooklyn, de um lado para o outro, tocando solitário seu saxofone tenor. Quando sente que vai chegando a hora de retornar à vida profissional, cheio de desejo de desbravar novos caminhos expressivos, uma das apostas de Rollins foi chamar uns caras com quem nunca havia tocado para compor sua nova banda. E ali estavam nada menos que dois pioneiros do free jazz: o trompetista Don Cherry e o baterista Billy Higgins, duas lendas que estavam com Ornette Coleman quando foram gravados alguns dos discos que mudaram a história do jazz (“The Shape Of Jazz To Come”, “Free Jazz”...). O novo quarteto de Rollins foi completado por um antigo parceiro seu, o contrabaixista Bob Cranshaw. “Esta nova banda que Rollins reuniu está tocando ao vivo o mais provocante jazz do momento”, sentenciava Amiri Baraka em uma crítica feita à época (“Sonny Rollins: Our Man in Jazz”). “Já aguardo o pessoal do anti-jazz vir à tona trazendo provas de que a música de Sonny deva ser chamada assim.”  Em julho de 1962, o quarteto de Sonny Rollins com Cherry, Higgins e Cranshaw fez uma temporada no incensado clube nova-iorquino Village Gate. As apresentações, que aconteceram entre os dias 27 e 30 de julho, foram registradas pela gravadora RCA, que decidiu lançar apenas um fragmento daqueles concertos que se tornariam lendários, colocando apenas três faixas no álbum “Our Man In Jazz”, editado em 1963 – e uma delas, “Dearly Beloved”, foi cortada pela metade sem dó: a gravadora provavelmente achou que o público de Rollins não entenderia o que estava acontecendo ali. Ou seja, os ouvintes tiveram apenas uma tênue sombra do que foram aquelas noites no Village Gate.

Por décadas, “Our Man In Jazz” permaneceu como um dos raros testemunhos do flerte de Rollins com o universo do free jazz – se ele não se tornaria um representante do estilo, vale lembrar algumas outras aproximações suas a este universo, como na inflamada peça “East Broadway Run Down”, de 1966; e no disco de free impro “The Solo Album”, de 1985. Bootlegs com mais material daquelas quentes noites no Village circularam entre aficionados de tempos em tempos. Mas apenas em 2015 surgiria uma versão completa do quarteto em ação no Village Gate, um verdadeiro tesouro que mostrava Rollins testando como nunca novas possibilidades para sua música. Com peças bastante extensas, parte delas rondando meia hora de duração (dentre revisitações abertas a clássicos e improvisação rolando livre), sendo cinco chamadas somente de “Untitled Original” – já que se tratava de criações espontâneas e não releituras de standards; “Untitled Original B” é especialmente desafiadora –, Complete Live at the Village Gate 1962, um box formado por seis CDs, apresenta mais de seis horas e quarenta de música, grande parte inédita (apesar desse grande clímax, o lançamento é estranho: tem muito boa qualidade, mas não saiu pela RCA, detentora dos direitos, ficando a cargo de um selo independente europeu chamado Solar. Enfim, vivas, já que temos essa música disponível para nos perdermos).

Vale lembrar em que estágio estava o free jazz à época para melhor sentir o quanto a música registrada naquelas noites de julho de 1962 eram avançadas. Este Rollins circulando pelo universo nascente do free, dialogando com a corneta do genial Cherry (que tinha deixado de tocar com Ornette Coleman há pouco tempo), traz momentos históricos da música livre que deveriam fazer parte de qualquer cânone dessa seara. Infelizmente o grupo duraria pouco – Cherry começaria de fato a partir dali a desenvolver seus próprios projetos, e Rollins seguiria por outros rumos. Eles ainda embarcariam em uma turnê europeia alguns meses depois, no começo de 1963 (com o baixista Henry Grimes adicionado, da qual restaram alguns bootlegs), mas ficaria por aí. Se ainda não parou para ouvir essa gema, faça isso, apenas deixe essa música incrível te levar (infelizmente, ao que parece não está nas plataformas de streaming, mas alguém subiu completo no Youtube). Celebre em suas fronteiras máximas a música desse colosso do saxofone que tão generosamente iluminou nossos ouvidos. Rest In Peace Mr. Sonny Rollins...

 

----------

*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)