PLAY IT AGAIN (América Latina)

LANÇAMENTOs Apresentamos novidades de artistas da free music da América Latina, não faltando conexões/parcerias com nomes de diferentes lugares do globo... Ouça, divulgue, compre os discos... 

 


Por Fabricio Vieira

 

Imprimiendo

Amanda Irarrázabal

Relative Pitch

A contrabaixista chilena Amanda Irarrázabal é uma das mais sólidas artistas da América Latina, com um leque de colaborações, projetos e discos amplo e com não poucas intensas realizações. Na sua bagagem também está um frutífero trabalho solista – e é nessa seara que sai este seu mais recente álbum. Em Imprimiendo, Irarrázabal apresenta um trabalho de inspiração bastante singular. Ela explica: “Primero grabé los sonidos de las máquinas de dos imprentas en el centro de Santiago, y luego de escoger extractos de las grabaciones grabé improvisaciones con mi contrabajo tocando con ellos” (as gravações de campo aconteceram em março de 2025, e as improvisações no contrabaixo, em agosto, no estúdio Disonaureo, em Santiago). Os títulos remetem ao universo imaginado, como “Anuncios”, “Ilustraciones”, “En Blanco” e “Panfletos”. E o resultado são 9 peças de intrigante sonoridade. Editado em digital e CD.  

 


Música Para Quinteto

Juanma Trujillo

Underpool 

O guitarrista venezuelano Juanma Trujillo comanda aqui um muito vivo quinteto internacional. Trujillo desembarcou em Barcelona em 2022 e foi lá que nasceu este registro. Captado no espaço Jazz Cava, em maio de 2025, Música Para Quinteto reúne o guitarrista venezuelano aos veteranos espanhóis Ramon Prats (bateria), Albert Cirera (sax tenor) e Miguel Pintxo Villar (sax), além do baixista japonês Masa Kamaguchi. São quatro peças, provavelmente pensadas para o corte de um LP (foram gravadas ao vivo durante a 27ª edição do Festival de Jazz de Vic, mas fica a impressão que o show foi mais extenso). Os temas, todos de Trujillo, mostram sua versatilidade como compositor, com peças bem-arquitetadas, pensadas para um quinteto, trazendo amplos espaços improvisativos, bem explorados pelos saxes e a guitarra, variando da swingante “Humo”, passando pela mais balada “Conflagration” e tendo seu melhor na potente “Howl”. Publicado em digital e edição limitada em LP.

 


Boca de Acero

Inés Terra & Santiago Bogacz

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A artista vocal argentina Inés Terra, radicada em São Paulo, e o guitarrista uruguaio Santiago Bogacz se encontraram em Montevidéu no ano passado. Boca de Acero é o resultado desta primeira parceria entre a dupla, trazendo gravação realizada em setembro de 2025 na Facultad de Artes, na capital uruguaia. “En 2025, nuestras músicas se encontraron a través de las redes y plataformas. Poco después logramos encontrarnos en persona en Uruguay, entre clases, conciertos y una nueva amistad. En ese encuentro, grabamos una sesión de improvisación”, conta Bogacz. Diálogo de voz e guitarra (Bogacz também toca um pouco de sintetizador), Boca de Acero traz muita energia improvisativa, em 5 peças que vão da intensidade de “Uno”, que abre o registro em voltagem mais alta, à mais detalhista “Cuatro”.    

 


Canto de Olho

Luise Volkmann  & Kiko Dinucci

Power House Records

Em 2023, a saxofonista alemã Luise Volkmann veio a São Paulo e aqui se encontrou com o guitarrista Kiko Dinucci. Eles trocaram ideias sonoras e deixaram a parceria registrada em uma sessão de estúdio, que virou o álbum “Enxame”. A parceria não parou aí. Desta vez, foi Dinucci que viajou até a cidade de Volkmann. E no estúdio o-Ton, em Colônia, fizeram este segundo registro em duo. São seis peças, com expressivas marcas da música brasileira, com o sax alto de Volkmann traçando um sensível diálogo com o dedilhado de Dinucci (que também canta) – o solo dela em “Olhar de Canto de Olho”, que vai tomando os espaços a partir de sua metade final, é realmente tocante. Uma inventiva jornada por canções em desconstrução e improvisações sinuosas. Sai em digital e edição limitada em LP.    

 


Las Instancias

Shantala Ferreya/ Suárez/ Goicoechea

625 Discos

A sempre vibrante cena argentina não deixa de nos apresentar de tempos em tempos novos nomes que chamam a atenção. Uma novidade que merece sua escuta é o trio Las Instancias, que acaba de fazer sua estreia com este disco homônimo. Formado por Shantala Ferreya (clarinete), Fermín Suárez (contrabaixo) e Gonzalo Goicoechea (bateria), eles fizeram este registro em novembro de 2025 no estúdio El Colosito, em Rosario, editado agora em formato digital (uma versão LP está no forno). Buscando um caminho entre improvisações coletivas e composições originais, a música oferecida em Las Instancias é bastante envolvente, com esta agrupação menos usual, de clarinete-baixo-bateria, soando muito bem, trazendo 5 composições originais do trio. Quem estiver pela Argentina em junho, poderá vê-los em ação no Club de Jazz Prez e no Festival de Jazz de Rosario.

 


Trilogía del Dolor

Wilfrido Terrazas

New Focus Recordings

O flautista mexicano Wilfrido Terrazas, um dos criadores do influente grupo de improvisação livre Generación Espontánea, adentra novos campos neste seu mais recente trabalho. Trilogía del Dolor é uma ambiciosa suíte em três partes na qual poesia e composição se tornam elementos basilares. Sem deixar a improvisação de lado, a obra – que traz o subtítulo “An Investigation of Human Pain in Three Parts” – parece ter sido minuciosamente planejada, se revelando um projeto de grande impacto. Em 11 movimentos e pouco mais de 1 hora de duração, a peça é executada por um quarteto instrumental (flauta, clarinete, violoncelo e percussão), duas vozes (soprano e tenor) e um artista visual na performance ao vivo, se propondo a ser uma meditação sobre a universalidade da dor. Os textos são de poetas mexicanos contemporâneos (Nuria Manzur-Wirth, Ricardo Cázares, Tania Favela, Mónica Morales Rocha, Nadia Mondragón) e é essencial ouvir as palavras com atenção para melhor apreciar a obra. Trilogía del Dolor foi gravada no Studio A, Warren Lecture Hall, em San Diego, em fevereiro de 2025. Editado em formato digital.

 


èmí

Ajítenà Marco Scarassatti

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Ajítenà Marco Scarassatti tem feito explorações sonoras por múltiplos caminhos nas últimas duas décadas. Nos acostumamos a ver o artista mineiro improvisando com muitos instrumentos criados e desenvolvidos por ele, além de instalações sonoras. Vale destacar nesse processo a viola de cocho, que se tornou como que um veículo de extensão vital à sua música, estando sempre presente. Assim, não deixou de ser uma surpresa se deparar com as informações deste seu novo álbum solista, que traz como instrumento apenas o sax alto. É claro que a expectativa quando se vê um sax alto em um projeto de Scarassatti é a de que ele não vai ser usado de forma convencional. E é exatamente isso o que acontece neste èmí (vale atentar à explicação sobre o título: èmí é uma palavra iorubá que designa o sopro da vida, o espírito que é insuflado no corpo para que ele possa existir). O registro, feito em janeiro deste ano em Belo Horizonte, resultou em quatro exploratórias peças. O músico dá uma ideia mais precisa sobre o trabalho: “Baseado em quatro improvisações para saxofone alto, explora as sonoridades expandidas do instrumento, destacando consistentemente a percepção da respiração: o ar passando pelo corpo do saxofone, o ataque percussivo nas teclas, a instabilidade do som, a busca por multifônicos. O saxofone como um corpo ressonante, atravessado pela respiração. Em três das quatro faixas, a improvisação original foi posteriormente reinserida durante o processo de mixagem por meio de sobreposições, sutis deslocamentos temporais e delicado processamento de afinação.” Editado em digital.

 


Collective Heliophobic Dream

Suncuts

UNIT Records 

Na infinidade de discos (sim, todos os dias, mesmo, aparece disco novo) que fazem o mundo da free music/impro seguir girando, não poucas vezes parece que um de seus motores seminais, a energia/ruidosidade, fica em segundo plano. Por isso, enche os ouvidos prazerosamente quando damos play em um álbum como este. O trio Suncuts surgiu meio que pelos acasos que rondam a música criativa. O saxofonista russo Anton Ponomarev ia tocar com seu grupo em Stuttgart, mas seus parceiros não chegaram a tempo. Então ele convocou dois conhecidos seus, o baterista suíço Maxime Hänsenberger e o baixista carioca Felipe Zenícola. O trio, que nunca tinha tocado junto, funcionou muito bem e acabaram virando um novo grupo, este Suncuts. Em dezembro de 2023, eles entraram em um estúdio em Biel, na Suíça, e de lá saíram com este álbum. Collective Heliophobic Dream é explosão pura, com faixas que chegam a ecoar fisicamente se você estiver acompanhado de umas boas caixas – deve ser uma experiência de grande impacto vê-los ao vivo. O álbum traz cinco faixas originais (com “Cut Through the Silence” em duas partes) de uma música de energia elevadíssima, especialmente na abertura (“Maw”) e no encerramento (“Broken Spectrum”). Sai em digital e edição limitada (200 cópias) em LP.

 


Noche y Niebla

Camila Nebbia & Luis Nacht 

Ears&Eyes Records

Este é um excitante encontro de gerações do saxofone argentino. Luis Nacht fez seu nome a partir do começo dos anos 2000, com álbuns emblemáticos do novo jazz argentino, como “El Presente” (2006). Camila Nebbia, radicada há alguns anos em Berlim, se tornou um dos nomes mais empolgantes e essenciais da música criativa global feita nesses tempos. Nebbia e Nacht nunca tinham gravado juntos, até que esta oportunidade surgiu no ano passado, quando se reuniram no Studio Dias Perfectos, em uma passagem dela por Buenos Aires. O quarteto foi completado pelos experientes Jerónimo Carmona, no contrabaixo, e Fermín Merlo, na bateria, costumeiros parceiros de Nacht. O trabalho dos dois sax-tenoristas, se de indiscutível criatividade, não seguem as mesmas águas, sendo, digamos, Nacht mais jazzístico e Nebbia mais free. Mas aqui a mescla de vozes funciona com justo equilíbrio inventivo, resultando em um disco de forte recompensa. Como as peças nasceram mais de improviso, o sotaque da saxofonista parece mais firme – há momentos como “Re quemada”, especialmente em sua abertura com Nacht destilando melódicas linhas ao sax soprano, que soam mais como material dele. O processo de criação das peças foi estruturado da seguinte forma: eles definiam primeiramente um título e, a partir dele e do que significava, construíram as peças improvisativamente. Ou seja, títulos como gatilhos conceituais para a improvisação coletiva. “A improvisação em Noche y Niebla é um compromisso radical com o momento presente. Não buscamos apenas a melodia, mas a expressão do som em seu estado mais sólido e despojado. É um som que se encontra e se molda na névoa, no exato momento da execução”, explica Nebbia. Assim nasceram as sete intensas peças do álbum, com destaque para o duelo de sopros em “Fumanchu”. Sem dúvida um disco de elevada relevância para a cena jazzística argentina.

 


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)