COMUNISMO FREE JAZZ


LIVROs
Obra de inegável relevância para entender algo mais dos primórdios do free jazz, tendo como enfoque a  participação da banda de Archie Shepp e Bill Dixon no Festival Mundial da Juventude em 1962, ganha edição nacional... 


Por Fabricio Vieira

Foi uma surpresa se deparar com a notícia de que a editora sobinfluencia iria publicar Comunismo Free Jazz no Brasil. Livro relativamente novo, editado em inglês em 2019, este importante trabalho tem como gancho e enfoque a participação do quarteto do saxofonista Archie Shepp e do trompetista Bill Dixon no 8º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, que aconteceu em Helsinque, Finlândia, entre 28 de julho e 6 de agosto de 1962. Este evento, organizado pela Federação Mundial da Juventude Democrática, era um encontro cultural internacional apoiado pela União Soviética e que teve sua primeira edição em 1947, em Praga. Buscando reunir representantes das artes e cultura de diferentes países, levou naquele 1962 estimadas 17 mil pessoas de 137 países.

Apesar de ter o festival como pano de fundo, Comunismo Free Jazz não se trata na verdade de um livro sobre o evento. É a participação do quarteto Shepp/Dixon lá que funciona como fio condutor e unificador (Cecil Taylor também deveria ter ido, o que ampliaria ainda mais seu impacto histórico, mas o pianista acabou não embarcando para a Europa), músicos da vanguarda jazzística dos EUA se apresentando em um evento ligado ao bloco comunista em plena Guerra Fria. Em torno disso, os organizadores do livro, o finlandês Taneli Viitahuhta e o kosovar Sezgin Boynik, reuniram materiais diversos e complementares, diferentes em suas formas, mas coesos em suas abordagens. A obra, no fim, soa algo como um desses livros que nascem de seminários e colóquios acadêmicos, com visões e enfoques amplos de um mesmo tema/objeto. Não se trata, assim, de um ensaio fechado ou um texto crítico-historiográfico redigido por uma pena específica — são várias vozes, um testemunho fragmentado com visões complementares. E talvez esteja exatamente nesta fragmentação um dos trunfos do livro, algo que o distancia do risco de se tornar uma tese acadêmica potencialmente pretenciosa e hermética.

No livro, composto por uma Introdução e oito partes, o leitor encontrará um muito interessante texto (“Archie Shepp e Bill Dixon em Helsinque”) sobre a preparação da ida, em Nova York, do quarteto para o festival, assinado pelo crítico e músico Jeff Schwartz. O quarteto era formado Shepp (sax), Dixon (trompete), Don Moore, no contrabaixo, e Howard McRae, na bateria. Este grupo gravaria pela primeira vez poucos meses após retornarem da Finlândia (“The Archie Shepp-Bill Dixon Quartet”, Savoy, 1963). Eles realizaram dois concertos no festival. Ao grupo, se juntaria o jovem clarinetista Perry Robinson, que não fazia parte da delegação original e chegou no evento por conta própria, de carona tocando em um barco. Eles eram desconhecidos fora do núcleo nova-iorquino e isso importa muito se pensarmos que estamos falando de uma era sem internet – realmente era difícil e demorado para as novidades musicais circularem. A recepção à música apresentada fica registrada no capítulo “Guerras do Jazz na Finlândia”, que reúne recortes de jornal com críticas (não faltam comentários negativos diante da novidade sonora) à apresentação do grupo. Interessante destacar que o free jazz estava nascendo, era só um lampejo inicial o que ocorria ali. O álbum “Free Jazz”, que sedimenta o nome do gênero e apresenta, de fato, a abertura de um novo universo sonoro havia saído meses antes, em setembro de 1961 (“Naquela época, o tipo de música que tocávamos não era muito conhecido e não tinha um público muito grande”, diz Shepp no livro).

“Testemunhos de 1962” traz textos breves de algumas pessoas que estiveram no festival, a destacar o de Robinson (o mais interessante) e o de Angela Davis (infelizmente bem breve, tratando-se na verdade de meia página retirada de sua autobiografia). Um contexto mais amplo do entorno do festival e da situação do jazz na Finlândia à época é apresentado em um ensaio mais extenso, de Viitahuhta (“Policiado ao Leste” ). A Finlândia não era um país comunista, apesar de sua proximidade (territorial e relacional, a destacar as relações comerciais) com a União Soviética. O país não tinha uma cena jazzística desenvolvida na época e a ida do quarteto Shepp-Dixon foi mais uma decisão do Partido Comunista dos EUA na hora de selecionar quem seriam os participantes do país no evento do que uma demanda dos organizadores do festival (lembremos que eles não tinha nem gravado nem tocado fora de Nova York então).

Diferentemente do que o título do livro possa enganosamente sinalizar à primeira vista, Comunismo Free Jazz não aborda o jazz livre no bloco comunista. Em diferentes textos é lembrado que o Jazz também se tornou uma arma de combate cultural durante a Guerra Fria, com diferentes importantes músicos dos EUA sendo enviados pelo governo para se apresentarem mundo afora, usados como veículo de propaganda do discurso oficial do país. Assim, como música do inimigo, o Jazz foi censurado e proibido em muitos países do bloco soviético — se o free jazz se sedimenta como música de protesto nos anos 60 nos EUA, o estilo também se desenvolve como música de protesto em países comunistas quando vai surgindo: em ambos os casos, anti-mainstream, mesmo que o mainstream significasse coisas distintas de cada lado (basta ver como as cenas free da Alemanha Oriental e da URSS, as mais estimulantes, funcionavam). Infelizmente o livro não explora essas estimulantes conexões.  

Para se contrapor ao Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, os EUA (mais ainda: com a CIA dando suporte) subsidiou um “contrafestival” para acontecer simultaneamente. O “Young America Presents” oferecia um vislumbre da “arte contemporânea” estadunidense, a destacar obras de representantes do expressionismo abstrato (muito explorado na propaganda governista) e também uma ampla escalação jazzística. Com diferentes estilos na manga, o “contrafestival” escalou também jazzistas inovadores, a destacar o trio de Herbie Nichols (alguém que teve pouco espaço para registrar suas obras) e Jimmy Giuffre, que fez uma inédita apresentação de clarinete solista (algo realmente inusual naquela época). [Este duelo de festivais, com o jazz mais avançado no meio, é outro ponto que renderia um ótimo extenso ensaio por si só.]

Aqui vale salientar que se os organizadores do livro tinham a ideia de fazer algo mais panorâmico, fato é que no final Archie Shepp se torna o grande protagonista da obra. [Bill Dixon, que deveria ser o outro protagonista, acaba ficando mesmo em segundo plano.] Há uma muito recente e oportuna entrevista inédita, de 2019 (feita pouco antes de o livro ser publicado), com Shepp, abordando exatamente aquela época e suas conexões com o mundo de hoje. Do saxofonista, também são republicados três representativos textos de sua autoria que bem sintetizam seu pensamento: “Um artista fala sem rodeios”, de 1965, publicado na DownBeat (este artigo, em especial, gerou muita repercussão à época: respostas a ele foram publicadas na revista durante cerca de seis meses); “Uma visão de dentro”, de 1966, que também saiu na clássica revista de jazz estadunidense (traça um panorama sobre o free em ebulição que estava acontecendo ali no momento, apresentando muitos músicos que quase nem tinham gravado à época); e “Música e identidade negra”, um artigo preparado para uma conferência em 1977 em Helsinque. O livro é arrematado com o ensaio de maior fôlego do conjunto, “Um lírio apesar do pântano: notas sobre Archie Shepp, um artista antifascista”, assinado por Boynik, que poderia carregar o título do próprio livro, sendo o principal ponto de reflexão e discussão da temática central da obra.

Comunismo Free Jazz é um livro que abre muitas reflexões e debates, e espera-se que estimule leitores/ouvintes a adentrarem outras publicações para ampliar seu entendimento sobre o jazz livre e suas conexões. E, o mais importante de tudo, estimular escutas infinitas desta sonoridade radical que nos move e nos faz crer no poder transformador da música. Music Is the Healing Force of the Universe...

 

[deixamos abaixo uma playlist com mais de 1 hora enfocando músicas diretamente citadas no livro ou que estavam ali no entorno daquele período retratado. Boas audições]

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)