Cecil Taylor em show histórico de 1969


LANÇAMENTOs
Concerto do incrível quarteto comandado pelo genial pianista Cecil Taylor, captado em Paris em 1969, finalmente ganha edição oficial... 

 

Por Fabricio Vieira

Cecil Taylor chegou aos 40 anos de idade em 1969, e aquele foi um ano de intensidade muito particular em sua trajetória. Seu Unit ganharia nova vivacidade e frescor, não apenas pela entrada de um outro membro, mas por este integrante ser um segundo saxofonista e, mais ainda, uma figura do porte de Sam Rivers. O ano se iniciou com o novo Unit – agora com piano, bateria (Andrew Cyrille) e dois saxes (o altista Jimmy Lions e o tenorista Sam Rivers) – fazendo sua estreia em uma apresentação na Universidade de Washington. “I think being with [Taylor’s] group sent me to another plateau. We rehearsed eight hours per day. Constant rehearsing. I had never done that before. That got me to a place where I was subconscious when I got to my fifteenth solo chorus: you know with Cecil one solo can last forty-five minutes to an hour”, disse Rivers, em entrevista em 1978 para o Washington Post. O grande momento e registro(s) desse grupo viriam poucos meses depois de sua formação, fruto de temporadas na Europa. Primeiramente veio o convite para uma residência de quase dois meses na Fondation Maeght, centro cultural em St. Paul de Vence, na Riviera francesa. Dessa temporada ficou o fantástico álbum triplo “Nuits De La Fondation Maegh”. No segundo semestre, tocaram em diferentes países europeus. E é daí que chega a novidade: pela primeira vez está sendo oficialmente editado em disco os concertos que o quarteto deu no 8º Paris Jazz Festival, em 3 de novembro de 1969.

Com o título de Fragments: The Complete 1969 Salle Pleyel Concerts, o novo disco traz material que estava guardado nos arquivos do INA (Institut National de l’Audiovisuel). Transferido das originais fitas analógicas, o álbum traz cerca de 2h30 de música, extraídas das duas entradas da banda no palco naquele dia (se o material nunca tinha sido lançado em disco, vale destacar que existe vídeo da apresentação, vindo dos arquivos da ORTF, disponível abaixo). A apresentação que fizeram de tarde é a maior, com cerca de 90 minutos; à noite, o fôlego foi mais centrado, durando uns 50 minutos. Em ambos os concertos, foi executada apenas uma peça sem interrupção, chamada de “Fragments of a Dedication to Duke Ellington” (dessa forma, é na versão em CD que se encontram os shows como nasceram; na versão LP, são fatiados entre as 6 faces dos discos). Esse grupo teve vida curta, tocaram juntos só até 1971, mas agora os generosos registros de 1969 ficam como testemunho de uma fase em que Taylor levava seu free jazz a um pico de energia e liberdade únicos. Editado pelo selo Elemental Music, Fragments: The Complete 1969 Salle Pleyel Concerts sai em CD duplo e LP triplo, com extenso livreto trazendo fotos raras e textos e depoimentos de Andrew Cyrille, Jack DeJohnette, Matthew Shipp, Karen Borca e Phil Freeman. O álbum será oficialmente lançado na próxima semana, durante o Record Store Day. Sem dúvida, já um dos lançamentos mais excitantes do ano.

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)