LANÇAMENTOs O lendário Grupo Um tem mais uma gravação inédita, vinda lá de 1977, resgatada e finalmente editada...
Por Fabricio Vieira
Nesses tempos em que comemora cinco décadas de sua criação, o Grupo Um parece agora poder encerrar com justeza seu histórico ciclo. Durante muitos e muitos anos, os três álbuns clássicos da banda, “Marcha Sobre a Cidade” (1979), “Reflexões Sobre a Crise do Desejo” (1981) e “A Flor de Plástico Incinerada” (1982), ficariam como o testemunho de seu processo criativo – afora ser um dos pontos culminantes da música instrumental criativa gestada no Brasil. Nascido por meio de mãos e ideias dos irmãos Lelo Nazario (pianista e compositor) e Zé Eduardo Nazario (baterista e percussionista), aos quais se uniu logo o baixista Zeca Assumpção, o Grupo Um existiu entre 1975 e meados dos anos 80, com seus integrantes tocando outros projetos após o lançamento de “A Flor de Plástico...”. Uma reunião especial para histórico concerto no festival Jazz na Fábrica, no Sesc Pompeia (SP), em 2015, geraria ainda “Uma Lenda Ao Vivo”, um disco de celebração, com sabor de celebração. Uns anos depois, em 2023, os fãs da banda foram sacudidos pelo anúncio de que chegaria um álbum inédito, “Starting Point”, com material captado em 1975, ou seja, sons da pré-fase clássica que muitos nem sabiam que existia. O que parecia ser um link final com o início do projeto ganhou um improvável e inesperado novo capítulo: uma sessão entre “Starting Point” e a estreia oficial de “Marcha Sobre a Cidade”. Mais um capítulo dos primórdios do grupo resgatado: Nineteen Seventy Seven, registro de 1977 (daí seu título) que fecha com louvor a história da trajetória da banda, que agora pode ser conferida em sua total amplitude. “Não tinha absolutamente nenhuma chance de ser lançado naquela época”, diz Zé Eduardo sobre o disco. “Não havia portas abertas para quem sonhava em ser protagonista na música instrumental criativa.” Nesse cenário, não só a estreia discográfica do Grupo Um, com “Marcha...”, foi atrasada, como ocorreu de forma independente, algo pioneiro então. O que surpreende é seus dois primeiros registros feitos em estúdio terem ficado engavetados até esta década! Se “Starting Point” já era uma competente apresentação do som da banda, Nineteen Seventy Seven dá um passo além. Obra já muito bem-acabada, com sólidas e inovadoras ideias musicais, tinha tudo para ter causado o mesmo furor de quando “Marcha...” apareceu. Expandindo o trio que primeiramente deu o tom do projeto, ouvimos aqui ao lado de Lelo (piano acústico, piano elétrico Wurlitzer, gerador de sinal), Zé Eduardo (bateria e percussão) e Zeca Assumpção (baixo elétrico) o saxofonista Roberto Sion e o percussionista Carlinhos Gonçalves. Eles entraram no lendário Estúdio Vice-Versa (SP) no dia 9 de novembro de 1977, onde registraram as 6 peças agora lançadas. Quem acompanha o Grupo Um irá se deparar neste Nineteen Seventy Seven com alguns temas conhecidos, mas em outras roupagens. A começar por “Cortejo dos Reis Negros”, que aqui aparece como “version 2”. Esta peça, que nasce baseada ritmicamente no maracatu, foi ouvida pela primeira vez em “Starting Point”, mas agora, ao receber a adição do sax, se torna definitivamente um tema renovado. “Festa dos Pássaros/Dois Segundos por Segundo” era conhecida apenas por quem tem a versão em CD de “Marcha...”, onde foi adicionada como faixa-bônus (e lá saiu como “Festa dos Pássaros/C(2)/9-0.74-k.76”). Apesar da similaridade estrutural da peça, lá ela conta com 14 minutos e aqui com 9 minutos (talvez se trate de duas versões da faixa feitas na mesma sessão). Para completar esse bloco, está “Mobile/Stabile”, a peça mais vanguardista criada pelo Grupo Um e imortalizada no álbum “Reflexões Sobre a Crise do Desejo”. Em Nineteen Seventy Seven, o que temos é a primeira gravação de “Mobile/Stabile”, uma versão realmente diversa da que já conhecíamos (lembrando que inclusive o grupo era outro). Mais longa, com 10 minutos, é encantamento e desconcerto puro, sendo uma preciosidade para quem aprecia em especial as investigações mais livres e avant-garde do Grupo Um. As outras três faixas do novo álbum são inéditas, a começar pela poderosa “Absurdo Mudo” (“assim intitulada pela dificuldade absurda que impõe aos músicos que a executam”); “Sambapsis”, com protagonista e decisiva linha percussiva; e “Valsa Cromática”, uma composição de Lelo que o acompanharia em sua carreira solo, na qual piano e sax dialogam de forma profunda e tocante.Como ocorreu com “Starting Point”, Nineteen Seventy Seven
está saindo em digital, CD e LP, algo a ser realmente comemorado. E mais uma
vez tem que ser elogiado o trabalho do selo britânico Far Out Recordings,
responsável por editar esses dois preciosos materiais (triste pensar que não há
um selo nacional apto a lançar essas preciosidades, documentos históricos de
uma das bandas fundamentais da música criativa brasileira).
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)



