Rodrigo Amado em dois novos registros


LANÇAMENTOs
O saxofonista português Rodrigo Amado, uma das vozes essenciais da free music contemporânea, apresenta novos discos com seus dois quartetos internacionais...  

 

Por Fabricio Vieira

 

Rodrigo Amado não é apenas o mais destacado saxofonista originário de Portugal. Seu talento o levou pelo mundo, fazendo dele um verdadeiro artista internacional, um nome incontornável da cena free jazzística global contemporânea. E seus projetos não deixam de ilustrar isso. Seus últimos dois discos o trazem tocando exatamente (e apenas) com parceiros estrangeiros.

Further Beyond (Trost Records), editado no último trimestre de 2025, apresenta Amado com o projeto “The Bridge”, um quarteto no qual ele divide os créditos com o baixista norueguês Ingebrigt Håker Flaten, o baterista estadunidense Gerry Hemingway  e o lendário pianista alemão Alexander Von Schlippenbach, no auge de seus 87 anos. Já em Wailers (European Records), que acaba de sair, o saxofonista tem a seu lado outro quarteto, o “This Is Our Language”, com uma trinca de músicos vindos dos Estados Unidos formada por Kent Kessler (contrabaixo), Chris Corsano (bateria) e (ocupando o espaço de lenda da banda) o saxofonista Joe McPhee, que completou 86 anos.

Ambos os projetos contam com títulos editados anteriormente; assim, os ouvintes já tiveram a oportunidade de conhecer as sonoridades exploradas e apresentadas por cada uma das bandas. São duas agrupações de intensidade e inventividade agudas, o que os têm colocado em inúmeras listas de destaques do ano. Further Beyond apresenta registro realizado em Bimhuis, Amsterdã, em abril de 2023. São três extensas faixas, entre 8 e 26 minutos, de uma música sempre surpreendente. Inevitável não pensar no título anterior deste quarteto multinacional, “Beyond The Margins”, registrado alguns meses antes e que funciona, ouvindo agora os dois em sequência, como uma espécie de sequência mesmo, uma Parte II daquela envolvente música. Se a improvisação livre está no DNA desses músicos, sentimos aqui algo que vai além disso, com temas palpáveis (difícil não ficar ecoando nos ouvidos o belo tema do sax que abre “A Change is Gonna Come”, com sua atmosfera jazzístico esfumaçada) e peças que se desenrolam por caminhos que parecem ter início e fim claros. Um fino exemplar que só pode ser criado por vozes que de tudo já soaram em suas trajetórias.

Wailers é outro bicho (a faixa-título já abre soltando faíscas), fruto de outro contexto: foi captado na cidade de Amado, no Namouche Studios (Lisboa), no mês de outubro de  2019 — sim, ainda na era pré-pandêmica, algo que agora soa como um tempo mais passado do que realmente é. Não parece, mas o “This Is Our Language” realizou sua elogiadíssima estreia há já uma década, algo mais, fazendo deste quarteto uma banda algo um tanto veterana, o que não é pouco neste mundo da free music, onde tantos projetos têm vida efêmera, coisa de encontros fulminantes nos palcos e adeus. E especialmente por ser fruto de estúdio, este Wailers tem muito frescor, afinal trata-se de música que nem afortunados tiveram a chance de ver/ouvir antes ao vivo. Vale citar ainda que Amado aparece tocando também, além do tenor, sax alto, algo raríssimo em sua discografia. São seis peças, algo mais focadas, variando de 6 a 10 minutos. “The name of the album came from a beautiful and powerful poem by legendary poet, writer, teacher, and political activist Amiri Baraka (aka LeRoi Jones). It speaks about resistance, truth and ransformation”, diz o músico.

Ambos os álbuns saem em versão digital e em CD (Wailers está em pré-venda, com envio programado para 3 de abril). Entre tantos lançamentos que a free music nos inunda dia após dia, esses dois discos merecem sua escuta atenta.

 

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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)