James Brandon Lewis em 4 empolgantes discos


LANÇAMENTOs
O saxofonista James Brandon Lewis apareceu neste ano com diferentes muito instigantes álbuns... 


Por Fabricio Vieira 


James Brandon Lewis
está no auge de sua carreira. Ele estreou em 2010, com “Moments”, e a partir daí foi galgando seu espaço na cena. Mas seria mesmo a partir de 2020 que sua discografia e seu nome passariam a se expandir e repercutir de forma acelerada, o colocando entre os saxofonistas centrais de sua geração. Na eleição dos críticos da DowBeat de 2025, Lewis confirmou o espaço que conquistou no universo jazzístico contemporâneo, ao ser eleito “Artista do ano” e “Sax-tenorista do ano”. Em 2026, voltou a vencer o Critics Poll como melhor sax-tenorista. Nada mal. Mantendo o fôlego, Lewis soltou neste ano novos álbuns de grande variedade estética, que destacamos abaixo, mostrando a amplitude de suas investigações sonoras e de seu imaginário sem limites.   

 

Omni

James Brandon Lewis Quartet

Intakt Records

Este Quartet é o projeto mais antigo e sólido de James Brandon Lewis. Já em seu 6º álbum, o grupo, formado ao lado do pianista cubano Aruán Ortiz, do contrabaixista Brad Jones e do baterista Chad Taylor, demonstra prefeito equilíbrio criativo e se revela o veículo ideal para Lewis desenvolver suas ideias composicionais em seu máximo – não à toa os críticos têm colocado há algum tempo esta banda entre as melhores da cena. Omni, gravado em outubro de 2025, no Hardstudios Winterthur, Suíça – casa da Intakt, que lançou todos os discos do quarteto –, traz nove peças novas, com o frescor que só uma banda entrosadíssima pode oferecer. Como aponta os títulos das faixas, Omni traz Lewis acenando a suas raízes na igreja, com peças ecoando como orações e hinos fervorosos, nos quais o sax tenor faz as vezes de pregador. O disco inicia com uma introdução, “Omnipotent”, com o sax solitário e contemplativo chamando os fiéis para o culto. “Fire in My Bones”, mesmo que não tão extensa, reserva alguns dos melhores momentos do disco, com o pulso contagiante de Taylor servindo camadas perfeitas para o solo envolvente do sax deslisar. Já “Line Upon Line” é a mais quente, com piano e sax em diálogo fraturado e frenético. E “Spirit of the Living God” talvez seja a faixa em que as ideias composicionais de Lewis (um método que ele chama de “Molecular Systematic Music”) se desenvolvam de forma mais trabalhada. Mais um grande registro deste grande grupo. Editado em CD e digital.

 


Deface The Currency

The Messthetics and James Brandon Lewis

Impulse!

Esta é a segunda colaboração entre James Brandon Lewis e o trio The Messthetics, reforçando o impacto causado pela primeira gravação deles, que fez barulho em 2024. The Messthetics é um trio instrumental com um pé no rock alternativo, formado em 2017 por Anthony Pirog (guitarra) e os membros do Fugazi Joe Lally (baixo) e Brendan Canty (bateria). E sua parceria com o sax-tenorista é bastante excitante. Entre os dois discos que gravaram, eles fizeram extensa turnê por EUA e Europa, com mais de 100 apresentações, o que ajuda a explicar a unidade sonora que alcançaram. A música concentrada do álbum se resume a 36 intensos minutos, divididos por sete temas. O que você ouve aqui é relativamente variado. Há temas com uma pegada mais jazz rock, como “Gestations”, entre outras com um impacto punk jazz mais evidente, caso de “Serpent Tongues (Slight Return)”, e tendo na mais exploratória “Universal Security” seu melhor. Publicado em LP e CD.

 


These Are Soulful Days

James Brandon Lewis & Lutosławski Quartet

Tao Forms

Mais um trabalho para apreciarmos toda a versatilidade de James Brandon Lewis. These Are Soulful Days é a primeira composição dele para saxofone e quarteto de cordas, tendo sido furto de uma encomenda do National Forum of Music da Polônia. A obra estreou no Jazztopad Festival, na cidade polonesa da Breslávia, em novembro de 2021. Junto a seu sax tenor, está o Lutosławski Quartet, formado por Roksana Kwaśnikowska e Marcin Markowicz (violinos), Artur Rozmysłowicz (viola) e Maciej Młodawski (violoncelo). A obra tem seis partes, sendo quatro movimentos, um prólogo (“Humility”) e um epílogo (“Resilience”). Obra camerística de força espiritual e contemplativa, é uma das criações mais belas de Lewis. “These Are Soulful Days is built from, and inspired by, the fabric of a quilted history of African-American music from its folk traditions of blues, spirituals and jazz. It embodies the sentiment of a joyful past, a determined present and a resilient future”, diz Lewis. O álbum apareceu como CD bônus na edição Deluxe de “For Mahalia, With Love” e ganhou neste ano, para o RSD, sua versão em LP (edição limitado a 500 cópias).

 


Calling Antonín

James Brandon Lewis / Red Lily

Tao Forms

Em mais recente registro, editado há pouco, James Brandon Lewis retorna com o elogiadíssimo grupo Red Lily, que passou por mudanças de integrantes e virou um sexteto: Joshua Abrams assume o contrabaixo no lugar de William Parker; e Tomeka Reid aparece no violoncelo, no lugar de Chris Hoffman; outra novidade é Melanie Dyer na viola (seguem firmes o cornetista Kirk Knuffke e o baterista Chad Taylor). Talvez esta formação nova, com a adição de mais uma corda, seja a escolha realmente ideal para a proposta do disco, que é ser uma homenagem ao compositor tcheco Antonín Dvořák (1841-1904) – os álbuns do Red Lily sempre celebram alguma figura que inspirou Lewis em sua trajetória. Calling Antonín traz nove composições do saxofonista inspiradas ou conectadas de alguma forma a peças de Dvořák. Se essa inspiração é de uma forma geral sutil, há pontos mais diretos, como na peça “Lento”, cuja referência vem do segundo movimento do Quarteto de Cordas nº 12, conhecido como American; e “Humoresque”, que é uma delicada composição de Dvořák aqui executada apenas pelo saxofone. Esta conexão com o universo da música erudita, de um modo geral, não chega a definir o álbum, não se trata de uma releitura jazzística do gênero. Mas temos inegavelmente algo camerístico aqui, uma música criada por um conjunto de cordas e sopros impulsionados pela percussão. O resultado é mais um belo álbum do Red Lily, grupo que permanece ajustadíssimo mesmo com a troca de integrantes, que deve marcar presença nas listas de melhores do ano. Já disponível em digital, CD e LP.

 


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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras (Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)