LANÇAMENTOs Novos imperdíveis álbuns da música experimental
brasileira acabam de sair. Apresentamos cinco títulos com propostas amplamente
diversas e criativas que merecem ser conhecidos...
Por Fabricio Vieira
Soliloquy
Sergio Vieira
Independente
O baterista
Sergio Vieira dá sequência à sua exploração do
instrumento. Mais uma vez em formato solista, como o ouvimos anteriormente em “Introspective
Landscapes” (2020), Vieira apresenta seis peças de sua autoria, em que trabalha
a improvisação solista. Como diz na apresentação do álbum, a bateria é
investigada além de sua função primordial rítmica, explorando “
som, textura,
dinâmica, silêncio, ressonância e gesto físico como elementos fundamentais da
expressão musical”. A experiência profissional de Vieira abrange o trabalho de pesquisa
sobre a linguagem da música contemporânea para bateria, sendo ele formado em
percussão pelo Instituto de Artes da Unesp – ou seja, sua música está além das
fronteiras do free jazz. O que o ouvinte tem aqui para degustar pode se revelar
bem mais abrangente do que alguém espera ao pensar em bateria solista.
Um dia um céu existiu
Bugio
Brava Edições
O duo instrumental paulistano
Bugio andava meio sumido e é
bom poder ouvi-los novamente em ação. Formado em 2012, o Bugio é composto por
Ale Amaral (bateria e efeitos) e
Marcílio Silva (baixo elétrico). Explorando a
improvisação livre, sem deixar para trás certa herança rock que emana do intenso som da
dupla, o Bugio apresenta aqui 11 peças, captadas ao vivo em setembro de 2024. Entre
temas mais diretos e intensos, há uma série de três faixas, chamadas “respiro”,
em que o duo apresenta propostas mais exploratórias e divagantes, com “respiro
#3” superando os 11 minutos, em uma bem escolhida forma (não sei se de fato
foi a última peça gravada) de encerrar o álbum.
Um dia um céu existiu sai em
digital e versão limitada em K7.
Vereda
Lelo Nazario
Utopia Studio
O pianista e compositor
Lelo Nazario comemora seus 70 anos
com o lançamento de um novo álbum.
Vereda apresenta oito peças, sendo sete
inéditas e uma regravação com novos arranjos (“Claridade”, que vem lá de 1997).
Nazario explora piano, Fender Rhodes e sintetizadores, além do trabalho com
samples (há também a participação de Teco Cardoso, na flauta, e do
percussionista Marcos Suzano). Cada uma das faixas tem um colorido próprio, com
variadas expressões artísticas sendo exploradas por Nazario. Em “Maré”, por
exemplo, o vemos ao lado do contrabaixista Zeca Assumpção, em uma das faixas mais
exploratórias do disco, que se revela uma inebriante peça em que o baixo acústico
dialoga com entrecortantes linhas criadas e camadas desenvolvidas no piano
elétrico e nos sintetizadores. “
Vereda carrega o sentido de escolha, a rota que
cada um traça para sua própria vida. Na música, minha escolha sempre foi o
caminho da inovação e da originalidade, evitando o atalho fácil da imitação.
Este novo álbum carrega esse significado: as obras foram criadas em diferentes
etapas da jornada, mas todas refletem a busca por uma beleza incomum”, diz
Nazario.
Mímica: Música para quatro instrumentos
Stephanie Borgani
Independente
Fruto de um projeto desenvolvido em 2024 pela vocalista e
compositora
Stephanie Borgani para uma apresentação ao vivo,
Mímica: Música
para quatro instrumentos ganha agora sua versão discográfica. O trabalho reúne
duas vozes (a própria Borgani e Marina Marchi) e dois saxofones (Lucas Sales,
alto; e Marlon Cordeiro, tenor) para explorar oito peças que navegam por entre a
música de concerto contemporânea, o free impro e o instrumental brasileiro. O
projeto “
utiliza vozes e instrumentos como organismos vivos e se inspira em
exemplos de mimetismo e camuflagem na natureza, a semelhança evolutiva de duas
espécies distintas”. Mesclando seções compostas e improvisação, cria “
ilusões
acústicas em que metal e carne se camuflam, entrelaçados” – até pelas vozes amplificadas
cantarem sem texto de apoio, o diálogo de sonoridades proposto se torna ainda
mais coeso, sem protagonismos ou fissuras. Gravado em uma única sessão, em 18
de janeiro de 2026, no Estúdio Arsis (SP),
Mímica é uma inebriante experiência
sonora.
Esse Isso Aqui
O Grivo & Francisco Cesar
Independente
O coletivo mineiro de arte sonora
O Grivo está na estrada
desde a década de 1990, então, experiência é o que não falta a
Nelson Soares e
Marcos Moreira Marcos. A música experimental que a dupla desenvolve em todos
esses longos anos parece encontrar aqui uma energia renovada. À instrumentação
do duo (Marcos: guitarra, guitarra preparada e eletrônicos; Soares, bateria,
percussão e shakuhachi), se une o saxofonista
Francisco Cesar, expandindo e elevando
a força sonora do projeto. “Que não se espalhe por aí” abre o registro com uma
energia que ecoa elementos do universo free jazzístico mais exploratório, algo
que retorna em “Lâmina”, que fecha o disco com grande força. No meio desses extremos,
outras peças (num total de 11), apresentam a amplitude das investigações
sonoras do trio, tendo seu ponto de divagação máxima em “Tudo está nisso”, com
seus 19 minutos. A envolvente e desafiadora experiência estética proposta por
Esse
Isso Aqui tem um complemento que se mostra vital para retermos cada detalhe, um
vídeo de sessão registrada no estúdio New Doors Vintage Keys (BH), que
pode ser visto
aqui.
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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez Mestrado em Letras
(Literatura e Crítica Literária). Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo
por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou
também com publicações como Entre Livros e Jazz.pt, de Lisboa. Nos últimos
anos, tem escrito sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de
liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo
Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live
in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)