sábado, 3 de março de 2012

Sons nas Redondezas - IX

Há quem ache exagero falarmos de uma atual cena de improvisação livre, que estaria sedimentando lentamente suas bases em SP. E talvez faltem, de fato, elementos constantes e sólidos para rotularmos o que temos visto crescer mais intensamente desde 2010 como propriamente uma cena... Mas além dos sempre citados e acompanhados concertos de nomes internacionais centrais dessa estética artística, cada vez mais habituais –outra palavra talvez exagerada!–, estamos presenciando a lenta abertura de outros espaços, além de CCSP e Sesc, à free music, o que demonstra uma melhora na recepção desses sons. Em paralelo, e tão importante quanto esses outros pontos, têm surgido novos grupos e projetos destinados a executarem e revitalizarem a música livre.

O Mnemosine 5 é um dos novatos desses tempos, reunindo jovens instrumentistas que se encontraram nas vitais oficinas promovidas pelo CCSP.
Biaggio Vessio (guitarra), Vagner Pitta (violino), Romulo Alexis (trompete), Luiz Gubeissi (baixo) e Marcos Motta (bateria) se uniram em 2011 para dar início ao grupo. Em menos de um ano, fizeram sua estreia pública, prepararam um disco (que sai agora) e, o mais importante: demarcaram com precisão uma identidade própria. Ouvi-los em ação remete direta e inevitavelmente ao mundo da free improvisation européia. Mas o projeto "Mnemosine 5" inclui mais do que apenas elementos da improvisação desenvolvida na Europa especialmente a partir dos anos 1970. O violinista Vagner Pitta explicou em texto no Farofa Moderna alguns traços que se unem para tecer o som do grupo: “(...) técnicas estendidas (técnicas não convencionais de usar os instrumentos), frases livres no âmbito do free jazz, ritmos brasileiros, música minimalista, psicodelia, camadas harmônicas entre música tonal e atonal, efeitos timbrísticos e influências do movimento europeu da free improvisation são alguns desses ingredientes”. Eu adicionaria também alguma pitada rocker, que pode ser notada na guitarra de Vessio nas peças “Arame Venoso” e “O Sanatório Clepsidra”.

O Mnemosine 5 surgiu no segundo semestre de 2011, enquanto participávamos das oficinas de improvisação livre do CCSP. Após um certo tempo de estúdio e entrosamento gravamos o nosso primeiro disco. Infelizmente, depois da gravação, o Luiz Gubeissi saiu do quinteto, dando lugar ao baixista Alex Dias, do Projeto Nave, que segue firme e forte no grupo. Em janeiro de 2012, fizemos nosso primeiro show no evento Casa Pelada”, disse ao Free Form, Free Jazz o guitarrista Biaggio Vessio.

Todos elementos citados por Pitta, e outros que o ouvinte possa vir a descobrir, servem de estímulo e base para a improvisação livre: esse é o norte e o escopo do projeto. Não se trata aqui de composições ou releituras, e isso é importante frisar, pois o grupo demonstra grande coesão e dinâmica harmônica, não há sobreposições caóticas nem momentos de atropelamento anárquico: fica claro que todos se ouvem e permitem que os outros sejam escutados, o que faz com que a música soe precisa e equilibrada mesmo nos momentos de liberdade mais extremada. É interessante o fato de termos em ação três instrumentos de cordas –os muitos embates entre as cordas protagonizam temas como “Engavetamento” e “Arame Venoso” –, sem que isso deixe o som do quinteto camerístico: as cordas são tratadas de modo livre em todos aspectos, o que ajuda a reinventar o diálogo entre elas e os outros instrumentos.



Todas as músicas são improvisadas, exceto o primeiro riff da faixa ‘Cactos em Dunas’, que eu já tinha composto, porém, não mostrei a ninguém do quinteto, somente no momento do improviso. Na faixa ‘Carste’, usamos uma dinâmica comum na improvisação, que só altera a ordem de entrada dos músicos. Nas demais faixas não ocorreu nenhum tipo de intervenção.
Eu sempre digo que é somente improvisação e que a nossa liberdade consiste em expressar todas as nossas influências de maneira espontânea, sem que isso nos prenda demasiadamente a um gênero ou que interfira em nossa investigação musical. Mas essa é a minha opinião, os outros membros do grupo devem ter as suas versões”, explicou Biaggio.

O ábum de estréia do Mnemosine 5 apresenta temas que se desenvolvem de forma bastante direta, com foco na improvisação coletiva, sem destaques solistas, rodeios sem rumo ou divagações intermináveis –que muitas vezes dão mais prazer aos músicos que ao público. Apenas “Carste” se estende de forma dilatada, com seus mais de 9 minutos e, não à toa, acaba por ecoar como a mais abstrata e densa do conjunto: após uma introdução do violino (acompanhado por intromissões ruidosas), temos o salto a primeiro plano do trompete, sutil, sem ataques, em uma dinâmica que se mantém até próximo do minuto quarto, quando o corpo sonoro vai se adensando gradativamente, com o fortalecimento percussivo e o explosivo desfecho reservado aos dois minutos finais. Uma das antíteses de “Carste” é “Zamba”, que já nasce incendiada com a bateria de Motta e se desenvolve com poucos pontos de sutileza auditiva.
Ouvir o disco de estréia do Mnemosine 5 deixa clara a maturidade e a inventividade do quinteto: não é sempre que um grupo surge já com uma sonoridade pronta, sem ecos de influências (negativamente) explícitas, sem a necessidade de se agarrar a referências consagradas ou a rótulos pouco elucidativos.


Mnemosine 5
Recorded at Estúdio Fryzed, São Paulo, Brasil. 2011.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

I. Perelman + C. Lispector: risco de overdose sensorial

Desde que fez sua estreia em disco –estamos falando de 1989–, raros foram os anos em que Ivo Perelman deixou de soltar um trabalho novo. O saxofonista abre 2012 com Family Ties, pela Leo Records, e promete outros títulos para os próximos meses. Muita coisa foi gravada por ele recentemente e novidades não devem tardar em desembarcar nas prateleiras. A destacar: uma gravação em duo com o veterano Joe McPhee; um trio sax-piano-bateria com Matthew Shipp e Gerald Cleaver; e um encontro com o quarteto de cordas Sirus (ao que tudo indica, esses dois últimos saem até maio).

Family Ties é o 37º álbum editado por Perelman nessas pouco mais de duas décadas de carreira –uma produção de quase dois rebentos anuais. Em trio, traz o saxofonista acompanhado de Joe Morris e Gerald Cleaver. O álbum é um desdobramento do título anterior, “The Hour of the Star”, realizado com o brilhante quarteto (esse trio + Shipp, agora ausente) que veio ao Brasil em 2010. “Family Ties” (Laços de Família) faz parte do ciclo clariceano, iniciado por Pereleman em 2010 com “The Stream of Life” (Água Viva) e “The Apple in the Dark” (A Maçã no Escuro), que traz uma serie de discos titulados com nomes de livros da escritora Clarice Lispector (1920-1977).

Mesmo sendo, em certo aspecto, uma continuidade de “The Hour of the Star”, esse “Family Ties” soa bem diferente. E não apenas pela ausência do piano. O corpo free improvisation está mais latente, com um menor ainda apoio temático, que podia ser captado de forma mais clara em certas passagens do disco anterior. A supressão de Shipp também não significa algo simples como “o quarteto menos o piano”. Se os músicos são (praticamente) os mesmos, a viagem improvisativa desnuda outras nuances.  

Cleaver tem se revelado um baterista de corpo ideal para Perelman. As marcações rítmicas metálicas que moldam a soltura quebrada de pouca robustez do baterista engolfam e suportam de forma equilibradíssima o sax tenor acidamente lírico de Ivo. O baixo de Morris também se revela precioso à sonoridade do trio –mas, ressalte-se: fica o desejo latente de ouvir Morris empunhando a guitarra nesses trabalhos. Seu baixo é seguro; todavia, à guitarra Morris é simplesmente o maior nome em atividade na free music atual.

Family Ties” se inicia com Ivo testando o toque anasalado do kazoo, soando como se fosse o mensageiro de uma nova jornada às trilhas clariceanas, prestes a começar. Não tarda para que o protagonista tenor ascenda a primeiro plano, ditando o percurso sem rumo predefinido no qual os três instrumentistas irão se embrenhar nos 75 próximos minutos. “Love” e “Family Ties”, as duas mais extensas faixas, mostram como esse trio poderia passar horas improvisando tendo como destino apenas o de criar música jamais realizada anteriormente. Nunca se repetem ou entediam, levando os ouvidos a caminharem em meio a passagens de pico de elevadíssima tensão, por entre caminhos ora sombrios, ora excitatórios (vejam o que ocorre entre os 10 e 13 minutos da faixa “Family Ties”), que fazem com que o disco jamais soe de forma plana.

O som engrossa de modo mais direto em “The imitation of the rose”, com os músicos extraindo coloração de maior densidade e rapidez, que se agiganta continuamente até os cinco minutos, com Ivo improvisando praticamente de ponta a ponta, esgarçando rastros melódicos que se perdem antes que possamos decodificá-los. “Mystery in São Christovão” abre em outro tom, com uma soturna melodia que remete vagamente ao clima do clássico ornetteano “Lonely Woman”, para logo se adensar, tateando rumos outros –apenas em seu minuto final tal clima é resgatado. Na sequência, a balada “The bufallo”, com ar de fim de noite regada a uísque morno desbotado em gelo derretido, encerra mais esse adentramento no cosmo clariceano. Sorrateiramente bluesy, “The bufallo” amansa os ouvidos após mais de uma hora de tensão auditiva. Sem dúvida, esse ciclo de homenagem à Clarice não deve ser encarado como um diálogo intersemiótico litero-musical. Essa nunca foi a intenção do saxofonista. Ousar ler Clarice Lispector escutando esse(s) álbum(s), como se de trilha sonora se tratasse, pode ter como resultado uma indesejável overdose sensorial.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Happy birthday, Mr. Charles 'Streets' Gayle !!

28 de fevereiro de 1939. Buffalo, NY. Nascia Charles Gayle, saxofonista de força única, free jazzista luminoso que gravou seu primeiro álbum apenas em 1988, com quase 50 anos de idade, após perambular incansavelmente pelas ruas oferecendo sua música aos transeuntes em troca de moedas... Já falamos do homem aqui vezes outras. Fica a homenagem a seus 73 anos completados hoje. Vida longa ao melancólico palhaço Streets.


(Charles Gayle e William Parker. 2012)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Março chegando, opções não faltarão...

Março encerra o primeiro trimestre de 2012 com uma agenda extensa e intensa. O ano, que já contou com Tim Berne/David Torn e Sun Ra Arkestra, ganha ainda mais impacto nas próximas semanas e faz com que pensemos: quem mais desembarcará nas redondezas até dezembro? Além de grandes shows pontuais, haverá o "Circuito de Improvisação Livre", com muitos encontros em várias datas e lugares. Atrações locais em meio a figuras centrais da música livre mundo afora vão fazer de março um mês sonoramente carregado


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CHINESE COOKIE POETS + MIR

O trio instrumental carioca Chinese Cookie Poets se encontra com os suíços do MIR. Os dois grupos são jovens e mostram sons recheados de free improv, rock e algo de noise. O CCP é formado por Marcos Campello (guitarra), Felipe Zenicola (baixo) e Renato Godoy (bateria) e soltou há pouco o single “En la mano del Payaso”. Energy music, sem descanço para os ouvidos.

Quando: 4/3 (dom); às 21h
Onde: Serralheria (SP)
Quanto: R$ 10

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"CIRCUITO DE IMPROVISAÇÃO LIVRE"

 A ser realizado entre 5 e 31 de março, em diferentes locais (Matilha Cultural, Bar B, Centro Cultural Cidadão do Mundo e outros), o Circuito de Improvisação Livre vem mostrar que a free music ganha cada vez mais espaço em SP. Destacando músicos conhecidos por quem tem dado atenção ao que tem rolado nas redondezas (Luiz Galvão, Biaggio Vessio, Thiago Salas, Rubens Akira, Flavio Lazzarin, Thiago Miotto, Leila Monsegur, Vagner Pitta, Marcio Gibson e outros mais), o evento terá vários encontros ineditos, com instrumentistas de linhas variadas e buscas amplas.


Programação completa aqui


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SAMBANZO

Thiago França leva seu projeto mais pessoal, o Sambanzo, para o palco do Sesc Pompeia, onde apresentou seu trio MarginalS em grande forma durante o Nublu Festival. No Sambanzo, que está para soltar seu álbum de estreia, o saxofonista se reúne com antigos parceiros, como Kiko Dinucci, celebrando múltiplas influências afro-rítmicas que compõem seu tocar.

Quando: 13/3 (ter), às 21h
Onde: Sesc Pompeia
Quanto: grátis

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HEITOR VILLA-LOBOS - OSESP”

Todo brasileiro, focado em música ou não, conhece o Heitor Villa-Lobos (1887-1959) da ‘Aria’ da Bachiana nº 5 ou do ‘Trenzinho do caipira’ da Bachiana nº 2. Mas o compositor carioca foi infinitamente mais complexo que essas peças de singela beleza. Sua ambiciosa sinfonia nº 10, “Ameríndia”, para orquestra, coro, barítono e tenor, muito pouco executada, ganhará leitura da Osesp, com regência de Isaac Karabtchevsky. Peça de grande força (destaque para o ‘Scherzo’), com texto de José de Anchieta. Oportunidade gratuita de ver música de ponta com a Osesp na Sala São Paulo.

Quando: 18/3 (dom); às 11h
Onde: Sala São Paulo
Quanto: gratuito

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JOHN ZORN & MASADA

O saxofonista americano vem com seu projeto Masada na versão clássica, acústica. Trompete (Dave Douglas), baixo (Greg Cohen) e bateria (Joey Baron) se juntam a Zorn para celebrar o encontro do free jazz com a música judaica. Importante notar que não se trata do Zorn em sua vestimenta rocker. Mas o Masada é um dos projetos mais bacanas e longevos do instrumentista e merece respeito e atenção redobrada. A vinda ao Brasil faz parte de uma turnê sulamericana.

*13/3 – Teatro Nacional Sucre. Quito (Equador)
*14/3 – Teatro Caupolicán. Santiago (Chile)
*15/3 – Teatro Coliseo. Buenos Aires (Argentina)

Quando: 16/3 (sexta), às 22h
Onde: Espaço Tom Jobim (Rio de Janeiro)
Quanto: R$ 70 (meia) a R$ 300

Quando: 17/3 (sábado), às 22h30
Onde: Cine Joia (São Paulo)
Quanto: R$ 100 (lote inicial)

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ATARI TEENAGE RIOT

O trio de Alec Empire retorna ao país após mais de uma década, como parte da turnê de ‘reativação’ da banda-símbolo do digital hardcore. Para os fãs mais antigos, fica a saudade da vocalista Hanin Elias, que deixou o ATR. Nic Endo, que comandava a bancada noise-electronic, assumiu os vocais em grande estilo.

Quando: 23/3 (sexta), às 23h
Onde: Cine Joia (São Paulo)
Quanto: a partir de R$ 60 (meia, lote inicial)

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KEN VANDERMARK DUO”
 

Após sua primeira passagem pelo Brasil, no fim de 2010, o saxofonista Ken Vandermark fez com que todos se perguntassem: quando voltará? E chegou a hora de um dos mais importantes nomes do sax em atividade retornar. Dessa vez, Vandermark terá um companheiro diferente: Christof Kurzmann (eletrônicos, voz, guitarra), com quem tocará em duo no Centro Cultural São Paulo. Aproveitando o desembarque, a Serralheria (cada vez mais atenta e aberta à free music, salve!) reúne os dois músicos a Thomas Rohrer, Panda Gianfratti e M. Takara para outro show. Haverá ainda, segundo informações extra-oficiais, concertos em Florianópolis e Porto Alegre, mas faltam detalhes sobre horário, preços etc...

Quando: 24/3 (sábado), às 20h
Onde: CCSP
Quanto: grátis

Quando: 25/3 (dom); às 21h
Onde: Serralheria (SP)
Quanto: R$ 10

Quando: 26/3 (seg)
Onde: Studio Clio (Porto Alegre)*
Quanto: (?)
Quando: 27/3 (terça)
Onde: Sol da Terra (Florianópolis)*
Quanto: (?)

*informações do site Improviso Livre 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Março incendiado: John Zorn (III)

Musicians don’t think in terms of boxes. I know what jazz music is. I studied it. I love it. But when I sit down and make music, a lot of things come together. And sometimes it falls a little bit toward the classical side, sometimes it falls a little bit towards the jazz, sometimes it falls toward rock, sometimes it doesn’t fall anywhere, it’s just floating in limbo. But no matter which way it falls, it’s always a little bit of a freak. It doesn’t really belong anywhere. It’s something unique, it’s something different, it’s something out of my heart.”        (John Zorn).

Muito lembrado por representar uma ponte entre o rock e o (free) jazz, John Zorn não é um músico que sempre atuou nas duas frentes, como o senso comum faz parecer.  O saxofonista conta que suas experiências iniciais tocando se deram na adolescência, com o rock, empunhando um baixo em banda de surf music. Mas quando tinha ainda seus 15 anos, se deparou com um disco do compositor avant-garde Mauricio Kagel, fato que mudou sua percepção artística e o levou a se matricular mais à frente no Webster College, em St. Louis, para estudar composição. Por lá, freqüentou as aulas de Oliver Lake e foi apresentado ao álbum “For Alto”, clássico solo de Anthony Braxton –pontos que o levariam a passar a se focar no que se tornaria seu principal veículo por toda vida, o sax alto. 

Os primeiros registros de John Zorn datam de 1973/74, quando contava com 19/20 anos, e mostram que o rock não estava mais em seu cardápio. Gravações “caseiras” de um jovem tateando em busca de um rumo sonoro, essas peças foram reunidas e lançadas comercialmente apenas em 95, como “First Recordings”, pela sua gravadora Tzadik. Na contracapa do CD, ele fala de influências da época (Kagel, Braxton, Cage): improvisação, música concreta, eletroacústica, é o que mais se vê por ali. Zorn ainda não era centradamente um saxofonista, mas um jovem instrumentista testando caminhos. E a junção do free jazz com o rock não era seu foco. No correr dos anos 1970, ele foi se dedicando cada vez mais ao sax alto, com sua música voltada principalmente para a improvisação livre. É daí que vêm seus primeiros registros oficiais, ao lado do guitarrista Eugene Chadbourne: “Lacrose” (77/78) e “School” (78). Nessa época, chegou também a tocar com a banda de Frank Lowe (1943-2003), aparecendo no álbum “Low and Behold” (77).

Apesar desses suspiros iniciais, seria somente a partir dos anos 1980 que Zorn abriria seu som de forma mais consistente às vastas trilhas que formariam e caracterizariam sua arte, alcançando seus primeiros “sucessos” e sedimentando seu nome como figura central da downtown scene de NY. O rock da adolescência ressurgiria, de forma mais explícita (e intensa), somente no final da década de 1980, quando arquiteta o Naked City, logo radicalizando o processo com o PainKiller. Depois, entre idas e vindas perdidas em meio a seu amplo cosmo sonoro, brotariam associações diretas com o universo rocker –Mick Harris, Mike Patton, Lou Reed, Napalm Death, Violent Femmes...

Fora esses, outra figura do rock que dividiu parcerias com Zorn: o baterista Dave Lombardo. Conhecido por ser as baquetas robustas do Slayer em sua fase mais nervosa (“Hell Awaits”; “Reign in Blood”), Lombardo cruzaria o caminho de Zorn nos anos 90. Apesar de nunca ter sido propriamente um companheiro de viagem do saxofonista, participou dos álbuns “Taboo and Exile” (99) e “Xu Feng” (2000), além de se apresentar com ele em concertos vários. 2001, Canadá, FIMAV (Festival International de Musique Actuelle de Victoriaville), foi uma dessas paradas. O sempre próximo Bill Laswell e o também hiperativo guitarrista Fred Frith completavam o quarteto que subiu ao palco do festival em 21 de maio daquele ano. O FIMAV é conhecido por ser um evento amplamente aberto, reunindo anualmente experiências de várias frentes, jazz, rock, impro, erudito etc. Nessa mesma edição, três dias antes, Thurston Moore se apresentou com Keiji Haino, em duo de guitarras desconcertante.

O quarteto de Zorn intercalou momentos de fúria com outros menos inflamados em seu concerto no FIMAV, mas sempre mantendo o tom elevado. A pouco mais de uma hora de apresentação, repartida em seis partes chamadas “Sanctuary”, mostra um grupo sintonizado: Laswell e Fitch são (eram) antigos parceiros de Zorn; Lombardo não. Talvez por isso o baterista tenha se revelado um pouco contido; caberia mais seu lado furioso, sua investida metal –não destoaria em nada do que os músicos estavam prontos a ofertar.


JOHN ZORN 4 tet – Live at FIMAV 2001

JZ4
*John Zorn: alto sax
*Fred Frith: guitar
*Bill Laswell: bass
*Dave Lombardo: drums

Recorded live at the Colisee des Bois Francs, 18º Festival International de Musique Actuelle de Victoriaville,  Quebec, Canada on May 21st, 2001.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Março incendiado: John Zorn (II)

PainKiller. Live, 1993.
(Poucas são as imagens do PainKiller com sua formação clássica em ação. No concerto (trecho) abaixo, Zorn, Harris e Laswell estão em foco fantástico, ofertando momentos de intensidade ímpar; relevem a qualidade pobre de som e imagem: registro histórico)




Os nomes de John Zorn e Napalm Death se cruzaram antes na estrada, mas faltava um registro de colaboração entre ambos. Para surpresa de muitos, dado o atual escopo sonoro do saxofonista, a esperada parceria brotou há pouco, está no novo álbum do Napalm Death, “Utilitarian”, que acaba de sair. Zorn adiciona seu sax alto à faixa Everyday Pox.

Houve outras oportunidades em que a banda-símbolo do grindcore e o avant-screamer saxofonista se cruzaram em álbuns. Mas se tratavam de coletâneas ou promos em que trabalhos de ambos estavam presentes. Em 1990, uma edição ampliada da clássica coletânea “Grind Crusher” trouxe, junto a bandas como Carcass, Unseen Terror, Entombed e ND, uma faixa do Naked City, projeto de Zorn que teve seu período vital entre 89 e 92.
Ainda em 1990, Napalm Death e Zorn/Naked City protagonizariam outro encontro. O zine “The Catalogue” trouxe em sua edição de setembro um ‘flexi single’, com pouco mais de 6 minutos e três faixas dos caras. Sabe-se lá se os fãs do ND se interessaram pelos ataques do saxofonista. Ao menos a gravadora tentou forçar tal aproximação...



znd
A1.Osaka Bondage (Zorn) - 1:18
A2. Malicious Intent (Napalm Death) - 3:26
A3. Sahngkuan Ling-Feng (Zorn) - 1:19

Release date: September, 1990.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Março incendiado: John Zorn (I)

Primeiro começou a especulação com o nome de John Zorn, ainda em dezembro. Semanas se passariam até que algo se confirmasse, sim, o saxofonista viria ao Brasil em março. Logo depois: estaria acompanhado do Masada. Local: o moderninho Cine Joia. Masada no Cine Joia? No mínimo estranho, deslocado talvez (ou teremos a grata surpresa de o Cine Joia se abrir ao avant-jazz?)... se ao menos fosse o “electric Masada”, mas não, tratava-se do “classic Masada”. Dúvida inicial: será que os responsáveis pela contratação do Zorn estavam pensando no Masada mesmo ou apenas tinham a missão de convencer o “radical saxofonista que apavorou o jazz e chafurdou no rock” a vir ao país? Vendo depois que o evento contava com a parceria do Centro da Cultura Judaica, pareceu que não houve equívocos. Afinal, o Masada celebra a “radical new jewish music”, busca o encontro entre o klezmer e o jazz livre. Mesmo assim, equívocos devem marcar o espetáculo, com boa parte do público curiosa para presenciar o rebelde do sax, o avant-garde screamer, e se deparando com um som (de primeira, sim, mas) relativamente comportado e organizado, free bop sem arestas, nada de sujo e agressivo, nada de rock ou experimentação no limite (para isso teríamos de ter o prazer de presenciar outros grupos de Zorn; destaque-se os já falecidos PainKiller e Naked City).

John Zorn é dos músicos mais difíceis de se conhecer de fato, dada a amplitude de suas investidas. Aos 58 anos, o saxofonista norte-americano já deve contar com mais de 150 álbuns editados, em projetos tão variados que oscilam entre (ou misturam) sonoridades vindas do jazz (free, bop, improv), do rock (grindcore, RIO, punk), da cultura judaica (klezmer), eletroacústica, erudito, improvisação livre, trilha sonora etc. Tanto que se alguém provar apenas de uma ou outra de suas mais relevantes criações –Masada (que tem diferentes encarnações com resultados díspares), PainKiller, Cobra, Naked City, ‘Film Works’, ‘Game Pieces’, ‘Chamber Music’, discos solistas, parcerias com free improvisers vários–, terá somente uma impressão parcialíssima de sua obra, que teve seus primeiros registros em 1973. Não sei quem será o público que irá ao Cine Joia (frequentadores da casa, pessoas que ouviram falar do ‘mito Zorn’, outras que baixaram algum disco por aí?), mas o risco de dizerem depois 'puta chatice esse negócio de free jazz' é imenso...

O John Zorn de espírito radical-roqueiro teve seus espasmos mais assombrosos na virada dos 80/90. E sua encarnação mais inflamada atendeu ao nome PainKiller. O ano era 1991 e Zorn se uniu a Mick Harris, baterista seminal do grindcore e membro do Napalm Death, para formar um trio que trouxesse elementos do universo dos dois músicos. A eles, juntou-se o baixista Bill Laswell. E o estrago estava feito. Faixas curtas e aceleradíssmas, em que Zorn explorava o limite dos agudos do sax alto, apoiado pelas baquetas incandescentes de Harris. A breve discografia do PainKiller começa com “Guts of a Virgin”, de abril de 91, EP que traz os elementos do trio já completamente definidos. Na sequência, viriam “Buried Secrets” (92), em sintonia com o disco de estreia, e “Execution Ground” (94), no qual o som do grupo ganha novo corpo, com longas improvisações e adição de pinçadelas eletrônicas/samples. Algumas gravações ao vivo complementam os trabalhos do PainKiller –destaque para “Talisman: Live in Nagoya”, captado em 94, que traz a face mais ambient/improv (há um tema de 30 minutos) que a metralhadora dos primeiros discos, porém sem abafar ou estrangular a vibração do projeto inicial. Em 95, o trio foi virtualmente desintegrado com a saída de Harris. Em algumas oportunidades futuras, Zorn reuniria o grupo (muitas vezes sem Harris). O último registro oficial do PainKiller se deu em 2003, nos eventos de comemoração dos 50 anos de Zorn, tendo a presença de Laswell, Hamid Drake na bateria e Mike Patton nos vocais.

Rituals: Live in Japan apresenta o PainKiller em seus primeiros tempos, turnê pelo país asiático em 91. Ao trio, juntou-se o infernal guitarrista nipônico Keiji Haino para sujar ainda mais algumas faixas (notem como a guitarra é fundamental à “Cat's Cradle”, elevando o ponto noise). Haino poderia ter sido membro-permanente do trio, sem dúvida... A gravação não é das melhores, mas dá para entender o que Zorn buscava com o PainKiller e decidir se vale ou não escutar os outros discos do trio.


PK
*John Zorn: alto sax, vocals
*Bill Laswell: bass
*Mick Harris: drums, vocals
*Keiji Haino: guitar, vocals (9, 10, 15, 16, 17)

Recorded live September 26, 1991, La Mama, Tokyo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Março incendiado: ATR

Em apenas uma semana de março, quem se interessa por sons ruidosos provenientes de diferentes contextos terá uma sequência inimaginável para conferir: John Zorn (17); Atari Teenage Riot (23); e Ken Vandermark (24). É provável que apenas uma pequena parcela do público acabe por se interessar pelas três expressões artísticas. Mesmo dentre os músicos, muitas vezes superar barreiras estilísticas não é algo simples. Zorn é um que faz isso com propriedade, basta ver sua união com o baterista Mick Harris (ex-Napalm Death) que rendeu o trio Painkiller. Esses encontros que os fãs (de um lado e outro) muitas vezes não se dão conta incluem interessantes casos: podemos lembrar do saxofonista Mars Williams, que passou por ‘Vandermark 5’ e ‘Brotzmann Chicago Tentet’, além de tocar/gravar com o Ministry; ou Charles Gayle aparecendo em disco da Rollins Band; e os caras do Borbetomagus em álbum do Sonic Youth; o violoncelista Tom Cora com o The Ex; Jason Pierce (Spacemen 3, Spiritualized) com Matthew Shipp; Don Cherry e Lou Reed (“Bells”), por aí vai... E falando de um que desembarca em breve: um encontro até óbvio (no sentido de casamento sonoro), no palco do CBGB: Merzbow, mito do noise contemporâneo, com Alec Empire, a base do Atari Teenage Riot (ATR). Isso foi em 98, no auge da banda-símbolo do digital hardcore, antes de o ATR se desintegrar e passar quase uma década em silêncio... até o recente retorno.


(ATR, 'Too Dead for Me', 1999)


Quando Alec Empire resolveu entrar em estúdio e retomar o Atari Teenage Riot, em 2010, colocou antigos e novos devotos em agito. Fora o inevitável “vale à pena voltarem? trarão algo de novo?”, havia buracos reais no processo: um dos fundadores do grupo, Carl Crack, havia morrido em 2001; além dessa tragédia, a bomba: a vocalista Hanin Elias, uma das faces do ATR, não retornaria. Envolvida com seus projetos, resolveu deixar o ATR no passado. Do quarteto que encerrara as atividades no começo dos 2000, restavam apenas Empire e Nic Endo, a discreta musa noise, sempre escondida no fundo do palco, concentrada em esmigalhar suas intervenções eletrônicas.

Nic Endo se aproximou do ATR lá para 97, quando a banda já tinha prestígio e passava a rodar o mundo. Mas sua entrada não representou apenas um novo (belo) rosto para a banda: o que a americana filha de mãe japonesa e pai alemão trouxe foi uma descarga noise que, para surpresa de alguns, ainda faltava ao grupo. Apesar do peso e da rapidez característicos do som do ATR desde seus primórdios –Empire começou a formatar o grupo em 92–, eles não tinham feito um mergulho serio na esfera noise. A festiva celebração anarco-punk de “Kids are United”, a levada jungle/drum’n’ bass de “Raverbashing” ou os samples de guitarra e beats aceleradíssimos de “Speed”, marcos dos primeiros tempos, amansariam quando emparelhados com os temas de 60 Second Wipe Out, lançado em 99, já permeados pelo noise agudo conduzido por Ms. Endo. Em paralelo a esse álbum, Endo havia estreado com o EP solo White Heat, de 98, exploração noise-abstrata na qual exibia a massa bruta de experimentações ruidosas que levou ao som do ATR.



(ATR. ‘Sick To Death’ at Fusion Festival 2010.)

Quem encarou de forma descompromissada os registros do ATR talvez não tenha se dado conta da aguda mudança que toma a música deles após a entrada de Endo. Mesmo uma escutada aos temas “clássicos” de '60 Second Wipe Out' ("Too Dead for me", "Revolution Action", "Digital Hardcore") revelam essa intromissão exasperada de cacofonia, que acabaria por levar a banda a extremos como o captado em 99, concerto no Brixton Academy, editado em disco como Live at Brixton Academy 1999, que traz apenas uma longa experimentação noise de 26 minutos. Por essa perspectiva, o retorno do ATR em 2010 e o disco novo em 2011 (“Is This Hyperreal?”), com Empire e Endo no comando, talvez decepcione um pouco: fica claro que o limite do som deles se deu na virada dos 90/00; agora, apesar do peso e da aceleração inevitáveis, optaram por um diálogo mais certeiro (sem que os resultados se fundam) com as primeiras investidas, algo mais eletrônico, mais pista, menos ruidosamente demolidor e desesperante. Em recente entrevista, Empire demonstra consciência em relação a esses processos. O músico afirma que o som do ATR se equilibra  entre pesadas "canções" (mais cantaroláveis e dançáveis) e experiências noise, revela sua admiração pelo japanoise (cita Masonna, Merzbow, Keiji Haino) e fala sobre seguir sem Hanin... É um outro tempo. Os ‘hits’ de hoje (“Active”, “Black Flag”, “Collapse of History”) não fazem concorrência aos ‘hits’ passados... Mas o grupo tem mostrado que ainda pode fazer apresentações desconcertantes, com Nic Endo à frente, dona dos vocais e do palco, na medida para o ATR, sem deixar desespedaramente saudosos (é possível? parece que sim) os fãs de Hanin Elias...

"ATR Live at Hultsfred Festival (Sweden). June, 1999"

atr
1. radio intro
2. Digital Hardcore
3. Sick to Death
4. Destroy 2000 Years of Culture
5. Deutschland Has Gotta Die
6. Revolution Action
7. Revolution Action / Not Your Business
8. Atari Teenage Riot
9. Too Dead for Me
10. Western Decay
11. Into the Death
12. Ghost Chase
13. The Future of War
14. No Remorse
15. No Remorse (cont.)
16. Start the Riot

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

'Space is the Place' (II)

Não conheço esse som não, nunca ouvi, falaram que é bom, malucão. Então, to aí para ver como é a doideira do som desses tiozinhos.


Frase ouvida no fim de semana, já dentro do Sesc Pompeia, pouco antes do início do concerto da Sun Ra Arkestra, vinda de um rapaz com uma camiseta grafada CBGB, devidamente acompanhado da namorada e de jovens amigos. Não imagino o que compõe o imaginário sonoro do rapaz –CBGB: punk rock, hardcore? Está certo que Brotzmann, Milford Graves e Cia. já apareceram por lá, mas isso não é regra... Nem o que ele esperava de uma big band há seis décadas na estrada. Doideira na encenação ele não viu muita, com excessão das roupas brilhantes e espalhafatosas. A Arkestra não estava acompanhada de dançarinos, cuspidores de fogo, percussionistas vários e outros artistas para ampliarem o caráter “espetacular” do concerto, como ocorria em tempos antigos... O som também não trouxe nenhuma “doideira”: em sintonia com os rumos conduzidos por Sun Ra (1914-1993) em sua última etapa, especialmente após os anos 1980, a Arkestra exibiu muito mais suas cores de big band swingante do que da flamejante orquestra avant-future-jazz que mexeu com ouvidos e corpos centradamente nas décadas de 60 e 70. Parece claro que o último suspiro free da Arkestra pulsa apenas por meio de Marshall Allen: o que ocorrerá após sua partida? Talvez a Arkestra hoje tenha vocais demais, improvisação de menos, ataques solistas tímidos e contida liberdade sonora. O resultado ainda é forte? Sim, visual e auditivamente, sem dúvida. E vale à pena, muito, vê-los em ação, tomando o palco. Sem blefes ou nostalgia, fazendo a música que Allen e seus companheiros entendem ser a melhor a ser realizada no momento. E não faltarão, como provaram, momentos saborosos, vivos e legitimamente sunrareanos. Não sei como o rapaz do CBGB absorveu a exibição, se concluiu que jazz é mesmo coisa de tiozinho ou se marcou na agenda 'imperdível' para os concertos de John Zorn e Ken Vandermak no mês que vem.

Se não ficou satisfeito com o que presenciou, nosso rapaz deveria se dirigir a registros mais antigos; é possível que se depare com algo que de fato chacoalhe sua mente, alguma doideira que justifique tanta euforia em torno do mestre de Saturno...


A primeira metade da década de 1970 foi especal na trajetória de Sun Ra. Com o nome já consolidado na cena avant-garde, o instrumentista teria a chance de ampliar seu público e a repercussão em torno de sua obra. Lá para 1972, Sun Ra deu um passo amplo nesse processo, ao assinar contrato com a lendária Impulse!, gravadora que se tornaria lembrada à frente pela incursão realizada no free jazz nascente. Além de gravações inéditas, o contrato visava relançar títulos do músico que haviam recebido apenas uma artesanal edição por seu selo Saturn. Mas esse relacionamento foi muito curto; em 74, a venda do catálogo da Impulse acabou por representar o fim dos projetos ligados ao avant-jazz, e enterrou os planos de Sun Ra. Nesse breve período de união, ao menos, houve tempo para incrementar sua história, marcando-a para sempre: e foi durante aquele 72 que o compositor chegou a um de seus clássicos máximos, Space is the Place, que trazia como tema-título o mote que sustentaria e representaria sua mensagem artística pela eternidade; foi ainda neste ano que ele realizou o filme de mesmo nome, Space is the Place, que já foi apresentado por um crítico da seguinte forma:
This experimental film is a bizarre combination of social commentary, blaxploitation, science fiction, and concert performance.” (Nunca viu? Confira aqui/here).

Meados da década de 1970 trouxeram também outras criações fortíssimas; destaque-se: “The Solar-Myth Approach”, “Universe in Blue” e “Pathways to Unknown Worlds”.
Outro grande exemplar, “Astro Black”, nasceu da associação com a Impulse na época. Uma curiosidade: esse é um dos discos esquecidos de Sun Ra, que não foi reeditado em formato algum, como ocorreu com boa parte de sua discografia dos anos 90 para cá. Motivo? Sabe-se lá... Astro Black traz o instrumentista explorando com vagar sintetizadores e o moog, criando espacializações por entre as quais sopros e percussão passeiam. O álbum destaca também a participação de June Tyson, cujos vocais são rotulados de “word-melody” nos créditos. Tyson é quem demarca a faixa-título, entoando o ponto de chamada do Astro Black; junto a ele, o baixo de Ronnie Boykins complementa a esfera melódico-ritualística, em um sedutor dedilhado rodopiante. Se o lado A contivesse apenas esse tema sublime, a fatura já estaria paga... No lado B, “The Cosmo-Fire”, em três partes sequenciais, fecha a conta. Por seus 18 minutos, esparramam-se improvisos, ataques, bailes percussivos e divagações sintetizadas formando um contínuo delírio auditivo. Space is the Place.  



A1. Astro Black (10:59)
A2. Discipline "99" (4:47)
A3. Hidden Spheres (7:04)
B. The Cosmo-Fire [Parts 1, 2, 3]  (18:21)

AB
*Sun Ra: keyboards (electronics), synthesizer, moog
*Marshall Allen, John Gilmore, Danny Davis, Danny Thompson: saxes
*Pat Patrick, Eloe Omoe: clarinets
*Ronnie Boykins: bass
*Charles Stephens: trombone
*Akh Tal Ebah, Lamont McClamb: trumpets
*Atakaun, Chiea, Odum, Tommy Hunter: percussion
*Alzo Wright: violin, viola
*June Tyson: vocals

Recorded at El Saturn Studio, Chicago, Illinois, May 7, 1972.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

'Space is the Place' (I)

Curiosa a repercussão da passagem da Sun Ra Arkestra pelo país. Há tanta gente assim interessada em avant-jazz? É o que parece, ao menos tem se falado no grupo em todos os cantos, até sessão extra no domingo o Sesc teve de anunciar... O mesmo ocorreu quando Ornette Coleman e Pharoah Sanders aportaram por aqui. Por outro lado, notem a magra repercussão que teve a vinda de nomes mais relevantes do que esses para a contemporaneidade sonoro-avant-jazzística (Ken Vandermak, Matthew Shipp, Mats Gustafsson) e ficará claro que há algo de estranho nessa conta... Bom seria se o chamariz das “estrelas” do free jazz levasse os ouvidos desse público mais vasto também para nomes novos (ou nem tanto) dessa seara que têm visitado nossos palcos...
Curioso lembrar que Sun Ra (1914-1993) voltou para Saturno há quase duas décadas! Mas o fascínio com o universo criado pelo músico americano parece permanecer intacto.   


(Sun Ra Arkestra. Spain, 1985)

Praticamente desconhecido até o início dos anos 1950, quando se transmutou definitivamente em Sun Ra, o pianista Herman ‘Sonny’ Blount provavelmente teria sido apenas mais um nome perdido no universo jazzístico do passado. O máximo que a biografia do pianista traz em suas primeiras décadas é um trabalho durante breve período como arranjador na orquestra de Fletcher Henderson (1897-1952). Isso foi em 46/47, quando o bebop era o que de mais moderno se fazia. E Herman tocando o velho swing ao lado de uma orquestra em fim de vida... Mas o inevitável não tardaria: os anos 1950 trouxeram o desabrochamento da persona Sun Ra: uma nova identidade e a articulação de um campo sonoro inaudito. Em meados daquela década, a Arkestra concebida pelo instrumentista já contava com seus membros fundamentais –John Gilmore (1931-1995), Pat Patrick (1929-1991) e Marshall Allen (1924)–, começando a arquitetar sua discografia, que superou os 200 títulos. Dos ainda tímidos experimentos de discos como “Sound of Joy” (57) e “Jazz in Silhouette” (58), Sun Ra rumaria à abertura sonora máxima a partir dos 60's, período em que trocou Chicago por NY e se enturmou com o pessoal do free jazz nascente. “Other Planes of There” (64) e “The Heliocentric Worlds of Sun Ra” (65) já testemunham o melhor do som da Arkestra estruturado, com longos temas, improvisações ariscas, amplitude percussiva, efeitos auditivos e visuais –marcas que acompanhariam a banda em suas variadas encarnações e que dão os fundamentos do que seus discípulos oferecem ainda hoje.



A Arkestra –o nome faz referência à Noah’s Ark: a função primordial da Arkestra era abrigar os espécimes escolhidos por Sun Ra para fazerem a travessia a seu universo–  foi/é mais do que apenas uma orquestra. Antecipando certo espírito sessentista, foi concebida como uma comunidade para o desenvolvimento de um projeto artístico que sobrevive há mais de meio século. A partir desse ponto de vista, é possível entender os motivos de a Arkestra permanecer viva mesmo após a morte de seu fundador, sem que isso soe apenas como truque de marketing ou incurável nostalgia.

Dentre os escolhidos para adentrar a sagrada Arkestra, há um brasileiro, o percussionista Elson Nascimento, que se juntou à trupe em 1988 e permanece por lá até hoje.

Eu saí de São Paulo, Vila Maria, trabalhei por seis anos com grupos brasileiros [nos EUA], até que um dançarino da Arkestra levou Sun Ra e Marshall Allen para ver nosso show. Depois do show fomos conversar com ele, que nos convidou para participar de alguns concertos em grandes festivais, Detroit e Chicago, eu e dois capoeiristas... Nunca tinha ouvido falar em Sun Ra [antes disso]...”, disse o percussionista em conversa com o Free Form, Free Jazz.

E como é estar envolvido com essa tentativa de manter o legado de Sun Ra pulsando? Era um desejo do próprio que a Arkestra sobrevivesse a ele?
O legado do Sun Ra não precisa ser mantido, ele se mantém por conta própria. Os ensinamentos do Sun Ra foram muitos, ele era um ótimo estrategista, com um conhecimento impressionante. Manter a Arkestra é uma pequena prova de que aprendemos um pouco com ele.
“É um orgulho muito grande para um brasileiro, porque trabalhar na Arkestra é especial... Depois que o Sun Ra partiu, já estivemos em vários lugares, fomos ao Brasil no Chivas Jazz de 2004, do Toy Lima, produtor corajoso que levou a gente aí, um lugar que o Sun Ra sempre quis ir, [também fomos a] Irlanda ,Sibéria, Austrália, mais recentemente a Israel, e isso para mim é um orgulho, ter sido treinado pelo Sun Ra...


Como se estruturam os concertos? Há música nova também?
O Marshall Allen é o líder total da música da Arkestra hoje, ele tem muita similaridade com o Sun Ra, escreve, arranja, escolhe o repertório, onde tocamos e parte do gerenciamento do grupo.
“O Marshall tem muitas composições novas que nós já gravamos, além de muitas músicas do próprio Sun Ra para tocar, precisamos é de mais shows... [No Sesc] serão concertos de uns 90 minutos. Na verdade não trabalhamos com roteiro, o Marshall decide na hora, espero que dê tempo para tocarmos bastante música e deixar todo mundo contente.


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Quando: 10/2 (sex), às 21h
Onde: Sesc Ribeirão Preto (Teatro Municipal)
Quanto: R$ 10 (inteira)


Quando: 11/2 (sáb), às 21h30
Onde: Sesc Pompeia
Quanto: R$ 32 (inteira)

Quando: 12/2 (dom), às 17h
Onde: Sesc Pompeia
Quanto: R$ 32 (inteira)

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**Photo: Sun Ra e Elson Nascimento - by Manfred Rinderspacher